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11/10/2022

Viajar

Esta manhã numa breve troca de palavras com uma colega de trabalho - há meses acordámos dividir a semana passada aproveitando o feriado para mini férias, ela na Sardenha, eu em Amesterdão -, apercebi-me da alegria que trazia consigo. Gosta de Itália, quer conhecer mais além de Roma e da Sardenha. Concluímos pelo gosto que temos em percorrer territórios fora do país. O pouco tempo não deixou oportunidade para nos queixarmos da falta de condições profissionais e materiais para o fazer mais vezes.


Não vou elaborar sobre os benefícios de viajar com aquelas balelas do costume que se lêem sempre - ah, é tão bom conhecer novos lugares e gentes com usos diferentes - que estão ao nível da tirada “ler faz-nos mais tolerantes”. Não quero com isto exibir-me soberba e mais esperta, mas tão só frisar que é importante as afirmações fazerem sentido além da aparência. Assim como não me vou arvorar na intelectual das viagens. É como quem diz atirar meia-dúzia de lugares-comuns sacados de leituras ou conversas frívolas em reuniões sociais, sobretudo, das boutades que servem de cola a grupelhos em bicos de pé – essa vontade inelutável de pretensa ao grupo restricto de gente que se tem por educada, amadurecida e culta por amiúde lançar mão destes ditos e gracejos ou contra-clichés, cujo objectivo primeiro é tantas vezes espezinhar o comum-parolo e envaidecer os autores. Uma forma de ganância, de carência de protagonismo e de ascensão ao poder como outra qualquer. Em todo o caso, o importante é olhar do degrau acima - alguns vêem nestas afirmações o meu complexo de inferioridade; é mais fácil assim, daria muito mais trabalho fazer pequeno exame de consciência. 


Vou antes contar que há muitos anos li um artigo acerca da velhice, das boas memórias na velhice e conselhos dos mais velhos. Já não tenho presente, mas creio que se tratava de norte-americanos e isso é relevante pelo factor conforto económico dar sempre uma perspectiva diferente de vida. Mas indo ao ponto: aconselhavam os mais velhos, gente na casa dos 80 e 90 anos, a valorizar a amizade e as viagens - as boas memórias guardadas residiam nestes domínios. Já não me recordo se falavam das relações familiares.


Ao lembrar esse texto recordo a minha avó – com quem sonhei hoje, sereníssima, numa Valinhas bela como nunca foi (a casa, não a avó); inicialmente era noite e víamos a casa iluminada por dentro num arrumo, paz e beleza nórdica que nunca reconheci em Valinhas; cá fora já de dia a avó andava, tranquila e metida nos seus assuntos, no terreiro muito ordenado, vestida de cores e tons nos quais nunca a vi – e bate certo: o mundo da família, dos amigos e das viagens estavam cravados na sua memória com grande alegria.


No ano passado um amigo, pouco mais novo, dizia-me que não se guardam especiais memórias do trabalho. A ideia seria tirar peso do que tanto valorizámos na vida dita activa. Aqui vejo uma distinção. Há casos de vocação ou de profissões relevantes seja pelo estreitar de relações humanas seja pela efectiva importância para a humanidade passíveis de grandes recordações. Mas na maioria das circunstâncias parece verdadeira a ideia de que pouco realmente relevante levámos da profissão para memória feliz da velhice. Talvez seja por isso que já aqui tenha escrito sobre o vazio que sempre senti nos homens e mulheres de acção na fase final da vida. Digo isto sem perder a noção do quanto considero importante o empenho no trabalho para nosso sustento material e até espiritual – através do trabalho, e bem do trabalho rotineiro, podemos encontrar conforto e sentido de vida. Só me parece importante não perder de vista que há valores mais importantes.


É uma perspectiva de ver a coisa. Não a tenho fechada. Posso vir a mudar de visão, mas há muitos anos sinto o que descrevi nos últimos parágrafos.


Boa terça-feira.