Começou o fim-de-semana com trovoada forte. Parece que atraí as faíscas ao comprar na semana passada um fio pechisbeque com raios, luas e estrelas. O raio ao centro proclama o que sobressai. Gosto do fio e das tempestades. Fazem lembrar os dias invernosos e emotivos em Valinhas por onde passei hoje. Do estradão, junto ao cruzeiro, vi a casa e a envolvência descaracterizada. É a lei da vida e é assim que deve ser. As casas para sobreviverem ao tempo e vingarem têm de se modernizar e adaptar. Já no cemitério as pedras das campas dos meus estavam sóbrias e lavadas, indiferentes à modernidade. O fino colar dá-me alegria e a sensação de voltar a tempos idos em que usava adereços discretos sem temer parecer uma árvore de Natal. Sempre odiei jóias ou adereços de imitação farfalhudos e vistosos. É muito raro o dia em que aguento em mim uma peça dessas – raro o momento extraordinário em que o brilho não me repugna. Às vezes passam grandes temporadas sem que use nada de adereço. Nos últimos doze anos uso um anel, que vai variando, dado pelo Nuno. Desde que emagreci voltei à cobra que me assenta bem no espírito. Juntamente com o relógio perfaz enfeite quanto baste. Há uns bons anos num assalto a casa da minha mãe levaram-nos tudo quanto tínhamos de recordações herdadas e jóias. O bom dessa experiência é que se fica com perfeita noção da pouca falta que faz esse tipo de riqueza. Só dói a casa esventrada e a nossa intimidade remexida. Depois passa e a sensação de alívio sobrepõe-se. A mim deixaram-me apenas esquecido um pingente que abre para colocar fotografias. Era da minha avó e gosto dele. Daí para cá às vezes compro uma peça de bijuteria com o sossego de saber que não tem valor. Meia-dúzia de vezes ao ano, se tanto, uso brincos. Embirro um pouco com eles por causa dos óculos. É tralha a mais, mas cada vez me é mais difícil usar lentes de contacto, que só coloco para nadar. De modo que resumindo e concluindo, o fio é a cara do que gosto: raios, luas e estrelas despojadas. Pechisbeque. Tenho-o posto todos os dias e assim vai continuar até ver.

Ontem acabei a leitura que se arrastava há 20 dias. Mas a História, em especial a História de Portugal, deixa-me sempre presa e por isso ontem ainda dei por mim a iniciar novas leituras na mesma área e senti-me a estudar até às duas e meia da manhã. É impossível não cair na tentação de tirar ilações das aulas de História, sobretudo, em matéria de organização da sociedade e do Estado. Vermo-nos num momento desse recorrente bater de ondas de circunstâncias da História. São fáceis e nem sempre ajuizadas as deduções nestas matérias tal como as citações e replicações do que se lê. Nunca me dediquei especialmente a estudar o que era suposto para a vida prática e colheita imediata de frutos – para os resultados, digamos assim. Ao contrário do trabalho, no qual passei muitos anos focada nos objectivos das empresas para as quais prestava serviço - muito mais do que nos meus próprios. Ainda assim admito curiosidade de saber se algum dia o que estudei devaneando pelo que me é caro fará diferença e terá algum proveito para além do gozo e contentamento íntimos.

Ontem ainda voltei a instalar o Office comprado há 12 anos. Há muitos meses escrevia no Word Pad, o que não fazia sentido. Ao rever as pen drives encontrei fotografias com alguns anos da casa de Bessa Leite – achei piada a um lanche de bolo de chocolate e pêssego em calda, acompanhado de groselha, na linha das imagens das Comezinhas, por isso vai figurar aqui -, que recordamos sempre com alívio quando chove muito, atentas a inundações a que fomos sujeitos, e encontrei uma fotografia de tagarelas, incluíndo o tal da Linea do vidro rachado. Deparei-me também com três antologias de ficção e contos portugueses. Isto é, tropecei nas minhas deambulações e leituras habituais, nunca sistematizadas, antes bem soltas e vividas. Como os raios, luas e estrelas despojadas.
