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09/10/2022

Desabafo

Ontem à medida que nadava pensava em dois posts que irei escrever em Dezembro. Não costumo pensar antecipadamente, aliás, é usual estar atenta ao que me circunda na piscina, deixar-me levar pela envolvência, mas ontem dei por mim a fazer mentalmente o levantamento dos livros que li em 2022 imaginando que os elencaria em texto como fiz o ano passado. É um exercício de memória como outro qualquer e no caso não é muito extenuante já que, como de costume, não li por aí além. Comecei a arrumar o ano. Noutro post farei o balanço pessoal de 12 intensos meses. Foi um ano e pêras e não se avizinha sossego nos próximos tempos. Neste segundo esboço mental de texto dei por mim a chegar ao fim pensando que omitira facto importante. A estima pela franqueza deixa-me o amargo de boca de não ser sincera. Não poder ser inteiramente verdadeira. Poderia arranjar formas arrevesadas de expressar o que me está atravessado e não quero partilhar, mas não me agrada a estratégia. Nunca fui de muita táctica. Não será burrice (ou até será, nunca se sabe), mas natureza e feitio. De qualquer forma, devo acautelar as consequências do remoer o que sinto e penso sem expressar. O passado demonstrou bem que tarde ou cedo o corpo e o cérebro se ressentem dessa omissão. Agir bem, seguir caminho pelo lado certo da estrada, devia dar a compensação da tranquilidade mental e de espírito, mas a realidade tem demonstrado que não é assim que a vida se desenrola. Se fosse cobarde inventaria um pseudónimo para extravasar, mas é certo que não o farei. Não faz o meu género. A solução é esperar que passe. Há-de passar, como tudo o resto. Ou não.


Ainda assim e como mesmo nesta circunstância consigo ser um tanto desbocada, posso deixar escapar de que se trata no geral da eterna insatisfação. Ah, caramba. Por revoadas a estopurada não me larga desde criança pequena. É assim com todos, pensa quem lê. Posso bem com todos e costumo estar atenta para não prejudicar e se puder, ajudar os todos, não posso é comigo, o fardo às vezes é pesado demais para tão pouca força momentânea. Gasto-a toda a ser razoável com a atenção a todos e o mundo na maior parte do tempo e não vejo um caralho de ponta de sensibilidade em tantos com quem me cruzo. Sofro. Odeio a leviandade com que tantas vezes me deparo. Ah, e os esgares espantados: não percebo?, o quê? Não tinham entendido uma porra, estavam a tratar das suas vidas videirinhas, do seu umbigo e vaidade e para isso se preciso for passam como caterpillars sobre os outros. Isso, aliado às fragilidades pessoais de que os outros não são responsáveis, dá cabo de mim. Os motivos vão variando ao longo da vida: frustração de não conseguir construir o que idealizei, desde a casa na árvore numa mata de Valinhas a um país sem guerra e sem pobreza, a um desenho ou texto sem rasurar, sem errar. Custa-me não saber o que sempre soube (aliás, tantas vezes não saber o que sei), enganar-me em tanto que já foi tão certo e fácil para mim, viver paixões platónicas ou sem futuro, dar atenção e respeito a gente que acabo por perceber não valer um chavo, ser desconsiderada profissional ou intelectualmente, não consigo aceitar a pulhice e as injustiças com os mais frágeis, ver singrar gente sem valor à custa do esforço alheio ou da trapaça e o desprezo por outros com efectivo valor, ver infligir sofrimento nos outros por desporto ou ganância, perceber a condescendência com a corrupção e ladroagem, detesto a arrogância de gente sem carácter que se coloca em pedestais para ser admirado usando quem precisa e destratando quem pode. Detesto jogo sujo. A mentira. Odeio mentiras. Odeio dissimulações. E mais ainda tropeçar em indivíduos que representam todo este visco perorar como se fossem impolutos.


Calma, não se assustem. Não sinto tudo isto agora nem senti tudo em simultâneo (quer dizer, talvez tenha havido momentos da vida mais negros em que tudo escureceu de modo tenebroso.


E agora que li e não revi com atenção custam-me as avaliações de catálogo fáceis e levianas que se fazem a propósito de quem não finge e de textos como este. Despachado com o carimbo de ingenuidade ou imbecilidade ou alienação?, escolham. Se apreciasse escatologia, diria graficamente o que valem esses julgamentos fáceis, mas não gosto (apesar de há anos ter descoberto aqui na SapoBlogs uma das pessoas que melhor escreve na plataforma e que para minha surpresa e boa disposição usa e abusa da escatologia, mas de forma brilhante - é uma novidade para mim conseguir rir com conversa de casa de banho). E este último parêntesis fez-me sorrir e passou a nuvem. É assim a vida.


 


Nota. Este texto está sublinhado a vermelho demasiadas vezes, basta escrever de rajada para o dicionário da SapoBlogs não reconhecer muitas palavras existentes da língua portuguesa que são menos usadas. Foi um dos primeiros comentários que fiz há três anos ao entrar nesta plataforma. Resulta da tal vergonha que existe em falar português fora de moda e fora dos mimetismos. E não é pela valorização do "complicómetro lexical" que vamos a bom porto. Seria bom reaprender a escrever com palavras simples em desuso.