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01/08/2023

Ideias soltas

Hoje deixo um punhado de ideias soltas que não vou juntar debaixo do título Agenda nem ilustrar com a mioleira azul luminosa. Ficarão assim mesmo desatadas.


Nas Comezinhas nego-me a falar das JMJ e das questiúnculas associadas, mas a propósito de religião apetece-me dizer que há mundos difíceis de compatibilizar: como fazer compreender a alguém com uma visão seráfica de Deus a confusão mental de quem se encontra completamente entregue ao domínio de vontade superior e aí não descobre paz alguma, mas pelo contrário perturbação mental e emocional?, ou como fazer perceber a alguém que não é tocado pela fé o sentimento tranquilo, conformado e esperançoso de que tudo tem explicação e tudo está ligado num sentido único desconhecido?


E já que estamos numa de perguntas: como fazer entender que a circunstância é quase tudo (um dia ainda hei-de ler José Ortega y Gasset). Como tentar pôr um pouco de bom senso nas fáceis beatificações do Papa Francisco por grande humanidade possua e muita audiência renda a imagem de bem-aventurado e, doutra banda, como pôr tento no rancor e medo dos ultra-conservadores católicos ao revolucionário Francisco? Tentar dizer serenamente que foi escolhido pela instituição milenar não ao acaso, mas exactamente por reunir as características que possui, aproveitadas na melhor das perspectivas para apaziguar os ânimos, na pior para imolar um cordeiro no calvário das acusações que pesam sobre Igreja.


Como fazer passar a ideia de que cada um de nós é tudo e o seu contrário ao longo da vida? E os encontros e desencontros do percurso podem ser muitíssimo frágeis e as grandes forças e realizações duradouras por mais consistentes e fruto de sacrifício, estudo e trabalho possam aparentar, são em última análise fruto de uma série (feliz) de acasos? Como explicar que a verdade absoluta de hoje para uns com importância fulcral já pode ter sido para outros e deixado de ser, ou nunca haver sido e vir a sê-lo, e que o encontro ou concordância de pensamento e sentimento é também fruto do acaso ou da circunstância? Como deixar a mensagem de que não somos inteiramente donos do mundo e da nossa vontade por mais bafejados sejamos pela sorte do conhecimento e da emoção?


Como explicar que o darmos importância ao conforto e felicidade do suspiro do gato não nos faz mais estúpidos? A menos que percamos a noção das proporções e desvalorizemos o bem-estar humano.


Como deixar registado que há momentos em que corrigir é pior do que deixar fluir? Desde o exemplo simples dos erros ortográficos em espaços alheios a um mal-entendido antigo no local de trabalho. Se o tempo e a convivência não são capazes de desfazer mal-entendidos é porque não há razão para explicações suplementares.


E se puxasse pelos fusíveis lembraria mais perguntas que me fiz hoje, mas varreram-se, por isso fico por aqui.


Deixo só uma imagem de ontem. Quando estava num momento de reflexão no autocarro em comunhão e identificação com os demais num tipo de preocupações ao nível das que revelei no início deste postal, reparei numa mulher no assento da frente toda recostada e a deslizar no ecrã do telemóvel imagens de vernizes cor-de-rosa berrante. Como direi? Não acrescento nada à sensação que tive no momento. Já dá mais um parágrafo, depois de digerida a precipitação. O seguinte.


Além de sermos tudo e o seu contrário, somos a essência e o fútil. Todos. As formas de manifestação serão diferentes em qualidade e grau. Mas basta um esforço de aproximação, e na maioria das vezes nem é necessário especial tino ou coragem por as circunstâncias determinarem a vizinhança, basta um esforço para chegar à conclusão que tudo é moldável e que o pior se pode transformar em muito melhor havendo compreensão e boa influência - a inversa também é verdadeira, infelizmente.


Pronto, agora é que é, calo-me. Até amanhã. Acho.