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24/08/2023

Moralidades à quinta-feira

Começo por explicar que hoje é “redon” de moralismos - já não me chega assumir este pendor tão fora de moda nos círculos da intelligentsia. Qualquer defesa de correcção é apontada como puritanismo ou como inocência de tonta pouco preparada com a mania que é boazinha, isto é, estúpida. Assim é visto o mundo pelos iluminados da intelectualidade dominante. Há dias escrevi o que vem a seguir e julguei que soava a ressabiamento requentado, pelo que resolvi não publicar. Sucede que hoje a preguiça supera o critério do razoável e como não tenho vontade de trabalhar num post novo, vou aproveitar os restos e introduzir correcções que ficarão a olho nu, com a canalização à mostra.


Depois de redigido esse post acrescentei: ainda incipiente. Juntar à eterna questão da ausência de critério e mérito as causas concretas que valem a pena referir e não são ouvidas - falar da mudez da massa silenciada. E digo agora: ainda não é hoje que o faço (refaço, aliás), preciso desemperrar a mioleira. Noutro dia virá.


Então começava o tal textinho por isto: temendo estragar um pouco o que escrevi antes volto à carga com nuances. E faço a pergunta não ao vento que passa, mas ao bafio parado.


Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?


São dois vícios. O teu de acreditar num país onde não se despreze o verdadeiro esforço e valor – e não é do teu esforço e valor que estás a falar, neste momento recordas outras pessoas com quem te cruzaste ao longo da vida -, e o vício deles de desmerecer quem não pertence nem ambiciona aceder às elites fajutas e seus múltiplos espelhos disseminados pela sociedade. Seja esse desconsiderar bem-intencionado, por condescendência com a tua ingenuidade e por medo da tua queda no confronto com os podres instituídos. Seja presunção estúpida resultante de pura burrice. Aqui não há como fugir ao insulto: para lá da generalidade de gente que vai tratando da sua vida o melhor que sabe um pouco indiferente às teias de podridão que nos cercam, lidas com asnos que se julgam o supra-sumo da sapiência. Dos que sempre se dão a si próprios e aos que lhes dão a ganhar como exemplos de vida a seguir. Dos que aconselham a solução de construção civil ou a dica de investimento financeiro ou leitura quando é visível que não compreendem peva de materiais de construção ou de finanças ou do que lêem. Dos que hierarquizam o mundo pela novidade da fachada ou pela última vaga de sound bites da consultoria financeira ou pelas referências de matilha pseudo-intelectual por se imaginarem em cimeiros patamares de credibilidade, atingidos por mero efeito do uso de lugares-comuns trocados em meios profissionais e sociais viciados, nos quais se troca a mestria pelo compadrio. Escondidos atrás de ridículas tabuletas que anunciam de modo absurdo, tal é o empolamento, o trabalho árduo, rigor, competência e mérito. No caso desta gente floreados, meras palavras vazias de substância, que aprenderam a empregar para ludibriar incautos. “Fulaninho tal, o melhor lá do sítio” – ainda que uma perfeita nulidade, aprendeste logo na adolescência. O que interessava era (e é) a forma como era (e é) vendido pela tribo e a força e influência (ou ascendente) da tribo na sociedade, sem qualquer critério de real mérito. Exímios em produzir ridículos textinhos laudatórios a simular biografias realistas. Exímios em produzir textinhos de crítica inconsequente à incompetência, à falta de rasgo, à ignorância dos portugueses (ou quaisquer outras pechas que se lembrem, as quais se esquecem invariavelmente de reconhecer em si próprios ou nos amigos que interessa cultivar). O que conta é repetir à exaustão que fulaninho tal é muito bom senão o melhor, se o elogio convier por contribuir para o aumento da audiência do bajulador e sobretudo se puder beneficiar dos favores do enaltecido ou dos privilégios do seu clã. O que conta é também desprezar tudo quanto de evidente valor exista se puser em causa os alicerces das tais hierarquias de podridão criadas no seio do oportunismo. E insistir sempre neste registo até convencer – o que é muito fácil neste país, aliás, como noutros, basta criar intriga que gere audiência, pagar ou conceder vantagens – os detentores dos megafones dos meios de divulgação a promover os eleitos por esta elite fajuta de protagonistas e aspirantes a cargos relevantes na sociedade e no Estado. Realidade replicada nos múltiplos pequenos espelhos por toda comunidade física e virtual.


Não ignoro que todos temos um preço e que todos, em maior ou menor escala, agimos de modo oportunista. Mas convenhamos que há escalas e que havendo presunção e desonestidade há quem viva de aparências e por isso mesmo não mereça crédito nem respeito, se bem que seja quem mais os costume reivindicar para si e para a sua tribo.


E bem podem guardar a condescendência e as injurias disfarçadas em inocentes conselhos. E bem podem guardar as ensaboadelas aos atrevidos, a essa gente de topete que ousa ver a realidade tal qual ela se apresenta. Gente digna diz o que tem a dizer de forma clara e à luz do dia, é agradecida e justa.


Admito que estou farta de escrever este tipo de críticas. Sinto-me chata e desacompanhada, mas insisto por a isso ser impelida pela realidade. Não é agradável ficar com o odioso, porém alguém tem de o assumir. É possível que um dia desista e faça de conta que não veja, como dizem ser mais sensato.