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28/08/2023

O post aberto ontem




Os outros


- actualizado -


por Isabel Paulos, em 24.08.22

 




Mais notas sobre o que toda a gente pensa e sente mas não diz. Razão para a tão comum falsa sensação de coerência - a ausência de contradições revela tantas vezes a omissão de algumas verdades por puro cálculo. Omitindo partes da realidade alcança-se a tal falsa coerência.


Os outros. Digo muitas vezes que o meu tesouro são os outros e pode parecer uma treta para disfarçar o narcisismo e dar o ar de pessoa equilibrada e terna, mas lamento: é isso mesmo (a adversativa aqui faz um sentido do carambas). A par das grandes figuras da minha vida, na qual mãe e Nuno figuram em destaque pela dose monumental de conhecimento que me passaram (atenção, chegou cá muito pouco e deturpado por responsabilidade minha, as fontes são bastante mais ricas e lúcidas), outros familiares e amigos contribuíram enormemente para o que sei e sou. Digo isto porquê? Por me fazer imensa aflição a forma pouco franca com que muitos exibem conhecimento sem pagar tributo. Dir-se-ia que nasceram ensinados e que tudo o mais adveio de esforço próprio. Ora, sinto-me precisamente no lado oposto, daqueles que absorvem o que os outros dão. Talvez seja uma das razões para tantas explicações soarem a infantilidade. Um dia alguém me disse que tirava o melhor dos outros. Senti-me um pouco vampira, a sugar o sangue dos incautos. Mas é certo que faço isso mesmo, sugo os outros, como todos, aliás. A diferença é que e o admito e declaro.


Como todos conheci centenas de pessoas. Poucas de modo mais próximo. Alguns fizeram-se amigos, muito poucos amigos para a vida. De todos herdei tiques, expressões, manias, verdades e preconceitos. Cresci numa família grande e os laços mais estreitos ou alargados talvez me tenham dado a dimensão do espaço de liberdade para escolher, para procurar saber. Cada um traz um mundo e foram muitos mundos a conhecer, tive de seleccionar os de maior interesse. Sei lá se numa perspectiva justa ou meramente aleatória.


Ao longo dos anos para lá dos conhecidos há aqueles que nos chegam através das escolas e faculdades, dos livros, dos meios de comunicação social, da internet. Aí a relação é, na maioria dos casos, unidireccional. Oiço, leio, aprendo. Absorvo os outros sem os conhecer. Ao lado das muitas dezenas de pessoas com quem fui trocando palavras, herdando laivos de temperamento (odeio a palavra idiossincrasia), há uma mão de gente (bem, sobram dedos) que segui com mais atenção e por mais tempo. É curioso este termo “seguir” a mim soa sempre a qualquer coisa de ilícito, tipo stalker. E dou por mim a pensar se neste meio não seremos um pouco perseguidores mútuos que se vão conhecendo uns aos outros de ginjeira - muitas vezes sem trocar uma palavra. Sim, por mais que se resguarde a intimidade (não aqui nas Comezinhas, que são um antro de pouca vergonha), ao fim de algum tempo vão-se conhecendo os traços de personalidade. Tudo isto para dizer que me parece importante a consciência do que aprendemos com os outros e a estupidez que é armarmo-nos em carapaus de corrida. Sim, ao lado destes poucos com quem tanto aprendi, há dúzias de intelectuais, de gente de acção e de tantos que a eles se encostam, que falam e escrevem e tudo espremido não vale (quase) um chavo. Como sou aproveitadinha, admito que até desses herdo ideias e palavras. Isto para que haja noção do grau de honestidade que coloco nestas últimas palavras. Por tudo isto me fazem tanta impressão sabichões de geração própria.


O certo é que para imbecil narcisista que passa a vida a falar de si própria vou tendo bastante disponibilidade para ouvir e ler os outros (ainda que tantas vezes discordando para dentro e algumas entrando em fúria). Tantas vezes disposta a dar atenção a gente que não demonstra ter um pingo de respeito pelos outros, apesar de todas as falinhas mansas, grandes defesas da tolerância e indignações tão sentidas contra as injustiças. O certo é que, tal como em criança, os outros me continuam a causar curiosidade e, como gosto pouco de cinismo, perplexidade. Tivesse mais vidas para os conhecer. Vá, se esta for comprida, já não é mau. Pode ser que venham surpresas boas.


Não se constrói um carácter sólido sem consciência das bases que o sustentam e dos limites que o circunscrevem. Dar ar de tonta e ignorante ajuda-me a preservar o espaço vital. Não obstante, estou muito atenta, curiosa e, por mais intransigente seja e para alguns mente estreita, estou genuinamente de espírito aberto a tentar perceber o mundo. Os outros continuam a fascinar-me. Uns mais do que outros, vá (e assim com um "vá" e um advérbio a seguir se estraga estrategicamente um texto).


Como tantas vezes disse ao longo destes anos, sou toda olhos. Hoje, com Nat King Cole, sou toda ouvidos, sou toda orelhas.


 


Adenda. Quando era novita encanitava-me gente, sobretudo, mulheres que faziam muitas referências familiares: filhos, maridos, etc. Achava uma falta de respeito pelos ditos. Como as coisas mudam.