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10/08/2023

O que é esta segunda-feira?

Pairar é a palavra escolhida.


Há muitos anos cultivavas um ciúme pequeno e saudável de quem te contava voar demorado a sonhar. Nalguns sonhos içavas ao céu como se presa numa mola invisível. Doutros momentos lembras a sensação de te elevares um pouco do nível do solo, mas não daquela sensação que imaginas fabulosa de sobrevoar aldeias, vilas e cidades. Ou paisagens de planície, montanhas, rios e mar. Saboreando bem o programa. É impossível não ambicionar viver sonhos assim. Afortunados sonhadores, esses. Houve momentos em que o mundo onírico tocou estas imagens, uma espécie de gozo de pairar sobre a Terra, mas nunca de modo pleno, que acordasses a dizer: sim, sonhei um bom pedaço que voava e pairei sobre terras que conheço, ou mesmo sobre paisagens exclusivas do sono. É uma ambição: vaguear no ar. Será que se pedires - isto é, falares muito nisto verbalizando o desejo -, acabas por voar a sonhar?


Em criança pequena sonhavas que voavas entre barras. Com toda a certeza pelo deslumbre que se apoderava de ti ao veres as ginastas nas paralelas assimétricas. Era um sonho bom de infância. Em adulta recordas mais sonhos de subir e descer, mas normalmente na vertical. Só muito raramente há a tal sensação de pairar e é sempre muito curta. Houve ocasiões em que a tua escrita era assim: subia e descia apenas, sem qualquer graça. É assim que vês muito do que é escrito: a maioria não sai do solo, com sorte iça e se houver arte paira e voa. Talvez a imagem da falta de soltar a mão ao pintar uma aguarela traduza esta ideia.


Vem isto a despropósito de ser tranquila a sensação de pairar sobre a vida. Começam a ser bastantes os momentos em que vês tudo à distância, sem grande comoção. Não é que não haja momentos de intensidade, de compromisso físico e psíquico com a realidade, daqueles que provocam comoção, com contentamento, paixão e euforia ou tristeza e fúria. Porém não raro dás por ti a passar os olhos e os ouvidos pelo real como se fosse raso de significado, de pendor problemático ou de qualquer modo relevante. Como se fosse tudo reduzido a explicação maior desconhecida. E aqui não entras no esmiuçar espiritual para não criar anti-corpos em quem não concebe nada de existente para lá do visível ou palpável.


Imaginem olhar para as fotografias de uma página da internet com rostos de figuras conhecidas e chegarem (devias escrever “imaginai” e “chegardes”, mas recusas-te) à conclusão que estarem lá essas imagens ou as de um queijo da serra ou pneu ou pato ter em vós exactamente o mesmo significado. Calculem o mesmo para conversas que ouvem ou nas quais participam, ou textos ou livros que lêem, jornais, filmes, etc. Imaginem-se do lado de fora do mundo, desprovidos de pensamento e sentimento que reflicta toda a carga de informação e esmiuçar inútil veiculados pelo espaço público e privado que consomem ou no qual vivem – aquilo que se diz dar consistência e conhecimento e que supostamente chancela a opinião como informada ou válida. Tentem supor que se despiram de todas a explicações prévias que vos chegaram ao longo da vida sobre os seres humanos e suas intrigas, acerca dos animais, plantas, do céu, terra e mar e todo do Universo. Que o vosso cérebro se esvaziou e nada tem a importância que as conversas, toques, afeições, olhares, leituras, conflitos, enfim, a presença no mundo impõe. Deixem-se cair na invenção desta ausência e compreenderão a insignificância de tanto que é valorizado por incapacidade de auto-conhecimento. E isto sem grande necessidade de explorar as noções contrapostas de consciente e inconsciente tão caras a quem parece não evoluir tendo ficado preso no tempo, ainda fascinado e convencido da modernidade e pertinência das novidades da psicologia e psicanálise de há 100 anos – com recurso constante às catalogações fáceis de realidades por quem tem a pretensão de tudo entender e tudo já ter visto.


Face a estados da mente fora do comum, como esperar compreensão do teu mundo se o expressares com total franqueza? Por mais exponhas muito com a maior clareza possível, sabes que há um hiato inultrapassável, por ora. Vais devagarinho, mostrando o que vai saindo naturalmente, não sem freio ou filtros – nunca serás adepta de excitações afirmativas e fáceis tão apelativas para os tais catalogadores das certezas que reduzem tudo à vulgaridade -, mas com a autenticidade possível e sem grande dificuldade talvez por falta de vergonha.


(esta semana troquei a quinta-feira pela segunda.)