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08/04/2020

Baú

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Não retive na lente a lua cheia da noite passada, mas ficou cativa na íris e hei-de para ela arranjar espaço no baú afortunado. Abro-o e de repente mais de quatro décadas de rostos surpresos, zangados, apáticos. E de sorrisos iluminados. Palavras ditas. Soltas e amigas. Azedas, indiferentes. Ternas, cúmplices. Sonhos descabidos e apinhados de gente para dar sentido. Cheiro a erva no campo, a terra negra, rica e molhada. Calçadas da cidade lavadas pela chuva. Perfume a relva cortada de fresco. Saltitos leves de pardais e boeirinhas. O volver ligeiro da cabecita preta do melro de bico amarelo. Restolho de casca de eucalipto varado pelo vento. O chumbo torcido da bala da pressão de ar na laranja amarga da casca grossa. O arrepio desagradável que repele os dedos da pele do pêssego. O frio da água de manhã cedo que gela as mãos. Som do batuque do pica-pau a fabricar o ninho, tal como traço o caminho sem querer saber do que é dado. Como o martelo, a bujarda. E pergunto se será como o sapo-martelo do Brasil. Se o posso trazer com o bicho-pau para o baú. Esta arca do tamanho do mundo a cada dia insuflada, pronta a transformar-se em balão de ar quente e subir até ao lugar ideal. A biblioteca vivida a que se junta a relatada.