Pesquisar neste blogue

20/04/2020

Os meus mais velhos

batom.jpgNão me conheço senão cativada pelos meus mais velhos. Como trazê-los à luz respeitando a memória ao mesmo tempo que lhes tento fazer jus? Recordando alguns traços, momentos, expressões felizes ou tristes porque a humanidade é feita disso mesmo. Do erro, do defeito ou tão só da falta de jeito que inunda a alegria, a bondade e a sabedoria. Os meus mais velhos têm todos pelo menos mais cinquenta anos do que eu, pelo que todos poderiam ser meus avós. Gente que me deixou perplexa, bem-humorada, cerimoniosa, encabulada, enternecida e tanto mais.


Reuni cerca de uma dúzia, mas para as comezinhas e por enquanto fica apenas uma. A excêntrica amiga octogenária que encontrei aos quinze anos no Café Glass, junto ao Liceu. Uma amizade que hoje se diria improvável. Três vezes viúva, o que por si é grande vida. Tratava-a respeitosamente por senhora dona Carmen. Do primeiro marido não rezava a história, ou se rezava esqueci os versos da oração, o outro era embarcadiço da marinha mercante e do terceiro o mais importante a reter é que também não lhe sobreviveu. A esta prudente distância de trinta anos sobre o relato pergunto-me se terão morrido de amor ou de espanto. Tinha uma pele alva e sedosa, retocada de pó de arroz, como as senhoras do seu tempo costumavam usar, batom não muito carregado e cabelo cuidado apanhado no cocuruto. Apoiava-se na bengala até chegar à mesa perto do balcão e as primeiras palavras que me dirigiu foram mais ou menos estas: reparei que pediu lume naquela mesa ali. Sabe, não devemos depender dos outros, devemos ser independentes. É para si, este isqueiro é para si. Estendeu-me a mão com o isqueiro bic com bonecada alusiva ao último mundial de futebol - o de 86 no México. Da última vez que a vi disse-me que iria viver para o Canadá para casa do filho. Imagino-a a diluir-se na neve e como quem não quer a coisa - e para fortuna deles - a deseducar os netos, devolvendo alguma humanidade a terra de tanta virtuosidade.