
Apesar do SNS não ter colapsado - o que deu um certo élan ao Governo -, há muito trabalho a fazer.
Nestes tempos Rui Rio deveria estar a denunciar todos os erros do governo e a exercitar o juízo crítico sobre outros órgãos de soberania (que não os tribunais, o seu cavalo de batalha em tempos normais) e demais organismos públicos. Sendo um homem de números era bom que se tivesse manifestado quanto aos dados estatísticos apresentados diariamente pela DGS e mostrasse estar ciente das dificuldades dos médicos ou dos organismos regionais, nomeadamente, em actualizar os dados (já não falo da leitura dos ditos que essa é outra história a ser contada por alguma alma de boa vontade daqui a alguns meses). Era bom que percebesse e apontasse as incoerências ocorridas em mais do que um momento. Igual raciocínio para a rocambolesca recomendação das máscaras. Deveria também ter-se manifestado sobre os atrasos injustificados de testes em determinadas regiões do país, denunciados por autarcas. E tomado nota da situação arrepiante nos lares e verificasse se foi (e é) feito tudo quanto era possível para salvar as vidas dos nossos mais velhos. Esta deveria ser a prioridade das prioridades. E que constatasse que mais depressa se demonstrou preocupação com os reclusos. Em rigor, a preocupação não foi com eles. Não me parece que o governo tenha consciência - ou queira ter - das condições em que passam a viver os reclusos depois do indulto. Mas é muito bonito a senhora ministra dizer ao Ricardo Araújo Pereira que é uma exigência de um estado decente. A opinião pública fica desvanecida com tanta decência do governo. Tal como ficou quando a senhora ministra (por quem até tinha simpatia) explicou que a razão do afastamento da anterior PGR (para surpresa da própria) foi o entendimento quanto ao limite de número de mandatos; há sempre um grande argumento de substancia ou de forma a desviar-nos da perigosa caminhada no sentido do razoável e do bem comum. E para terminar deveria ter dito o que pensa (bastaria isso) sobre a celebração do 25 de Abril no momento em que milhões de Portugueses estão a ‘atrofiar’ (desculpem o termo mas aqui parece-me adequado) fechados em casa. Estou certa que RR pensa que é um absurdo. Tenho pena que não o diga.
Podia fazer tudo isto sem por em causa a unidade nacional nem o escopo do bem comum. É patético confundir oposição com deslealdade ao desígnio nacional. Mas, claro, a ideia convém muito a quem nos governa e à mentalidade dominante, que faz questão de festejar em tempo de estado de emergência uma peculiar e restrita forma de liberdade e democracia. Ao nível do bailarico, vá.
Mas como Deus escreve certo por linhas tortas, o caminho que RR está a seguir deve ser o que agrada aos portugueses. Quanto mais não seja porque a comunicação social abriu caminho depois de sensibilizada pelo elogio externo, que como se sabe é o mais alto certificado de confiança que qualquer português pode almejar.
De resto: nada de novo, nada que não esperássemos. Destes pantomineiros que se acham proprietários do condomínio de acesso reservado que é para si a dupla liberdade/democracia. Pequeninos, medíocres, mas cheios de si. Mais habituados a governar-se do que a governar. E uma comunicação social condicente.
(comentário no Delito de Opinião, com ligeiras adaptações.)