(Sábado, 23 de Março)
Se me dessem seis meses de vida, o que faria? Começo pelo preâmbulo: conjecturar a hipótese não é vivê-la, por isso haverá perda de verdade. Mas adiante.
A primeira ideia seria a de gozar a vida mais ainda. Comer pratos mais apetitosos, foder e rir mais. Passar mais tempo na praia e nadar no mar, passear na serra junto às árvores e demais vegetação. Gozar uns dias numa quinta com terra remexida, árvores, erva alta e bichos – não numa fantasia de Valinhas que trago em mim, mas é passado da meninice e nesses últimos meses só quereria futuro.
Pegaria nas poupanças e gastaria em viagens. Partiria sem demoras para a América do Sul onde passaria três semanas e outras tantas no Oriente. Daria um pulo a Angola para conhecer N’Dalatando.
Já de regresso a Portugal no Verão iria rumo a sul e numa zona pouco habitada e iluminada do Alentejo ou Algarve alugaria uma casa caiada da branco com terraço no topo para dormir ao relento – numa noite quente adormeceria a olhar as estrelas. Só ainda não decidi se sozinha se com o Nuno.
A parte difícil: os meus pais, irmãos e sobrinhos e poucos amigos. Fazê-los entender que morreria feliz, porque fui e sou essencialmente alegre e feliz, apesar das zangas, das críticas, das tristezas e dos amuos. A morte não me traz medo ao contrário da doença. Apesar de me apetecer viver muito e morrer velhinha, se morresse agora não haveria problema de maior senão a preocupação com quem fica.
Mais difícil ainda: o futuro do Nuno. A sua felicidade. Apesar dele achar excesso de zelo, dir-lhe-ia que estaria do lado de lá a tecer os cordelinhos para que se entendesse com uma mulher que o mimasse. Até tenho duas hipóteses em mente - sou uma rapariga precavida. Dir-lhe-ia que ficaria do lado de lá a tomar conta dele à distância e ai delas que não o tratassem bem. Recomendaria que contasse com a filhota R. e desse mimo a dobrar ao Ritz para não sentir a minha falta, mas sei que seria desnecessário porque o Nuno não se esqueceria.
Depois no fim de tudo vivido e tratado, se fosse possível, gostaria de poder continuar a trabalhar até ao fim e morrer numa manhã banal distraída nos meus pensamentos e planos de auricular com música nos ouvidos na caminhada em direcção a um dia comezinho de trabalho. E no momento da passagem para a outra banda agradeceria a Deus não ter tido filhos evitando assim provocar-lhes dor. Afinal tudo na vida tem um lado bom, até o próprio sofrimento.
É engraçado: pensei em tudo, tal como ao início da tarde, sem lembrar as Comezinhas para as quais corro todos os dias em constância. Confirmei assim que o blogue tem mais valor pelo registo e até a própria escrita não é o essencial na minha vida, assim como a leitura. São apêndices a que dedico muito tempo e que me dão imenso prazer, mas não vitais. Se tivesse ambição de vir a ser escritora o normal seria que dedicasse os últimos seis meses de vida a escrever um romance para a posteridade, mas não. Não seria isso que me moveria.