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29/03/2024

Estupidez: blindagem ao sofrimento

(21 de Março)


Na televisão André Ventura perora. Afirma que será primeiro-ministro naquela autenticidade de oportunista não precisada de fingir para defender o que acredita. É provável que seja uma questão de tempo. As duas jornalistas que o entrevistaram sorriram muito. Será riso nervoso? Adiante. Acabou a entrevista. Agora vem três meninos comentadores de gerações diferentes mas todos fadados à nascença para serem ouvidos por grandes audiências atenta a extraordinária capacidade de análise. Um deles é considerado sobredotado. O que no espaço público português significa nascer velho e reproduzir as gerações anteriores de modo precoce. É altura de apagar a televisão e ligar a smooth fm, que os iluminados da treta tratam por música de elevador ou hotel com aquele desdém próprio de quem nada compreende e sempre recorre aos tiques soberbos de desdém em voga nas seitas que se consideram sofisticadas disfarçando a palermice e a aparência de conhecimento.


Falar de si próprio contando sonhos e planos aumenta a produção de substâncias químicas cerebrais, os hormónios que potenciam o prazer. No caso a dopamina. E é viciante, compreendendo todos os defeitos que um vício comporta. Tal qual a endorfina na prática de exercício físico, ou a oxitocina no gesto gentil, na real atenção na amizade e no amor, ou a serotonina na sensação boa de reconhecimento alheio. Não há bela sem senão. Tudo quanto nos proporciona prazer tem contra-indicações.


Vem isto a propósito da questão do excesso de exposição e do falar demais. Hoje pensei no assunto, como acontece amiúde. Pus-me a questão de falar demais nas relações próximas contanto os meus muitos devaneios, o que acarreta o rótulo de tonta ou inconsistente. Quando refiro isto ao Nuno ele riposta com o não és inconsistente, és pura - o que para ele ao contrário de mim é diferente de ser tonta, ingénua ou burra. Mas também levantei a questão nas relações com meros conhecidos ou em público. Falar ou escrever muito, expor a casa, o gosto, as minhas relações, fragilidades, fraquezas implica risco. Perigo de ser ferida. Nada que não conheça de toda a vida. Se me mostro sem defesas dou armas para que me ataquem à traição e ao longo da vida tive o desprazer de conhecer oportunistas que sempre se aproveitam de pessoas com este tipo natureza. Dizem-me que tenho muitos argumentos para feri-los também. Argumentos para reduzi-los à insignificância, mantendo-me segura, atenta a verticalidade e autenticidade. Compreendo o que dizem. Como me podem ferir se conheço os meus defeitos e fraquezas e os assumo? Deveríamos nem sequer sentir-nos ofendidos face à falta de carácter dos ofensores. Há quem diga que consegue essa indiferença face à ofensa injusta, normalmente mentem. Há aqui uma necessidade de sentir-nos redimidos. De ver reposta a justiça e isso só aconteceria com a assunção do erro por parte dos agressores. Era bom que fosse assim fácil. Para que essas correspondências se verificassem seria necessário que quem ofende tivesse capacidade de introspecção e honestidade. Ora um oportunista, um impostor raramente admite que o é, mesmo a si próprio. E isso implica que tenha uma espécie de escudo, comum aos estúpidos. Posso dizer a um canalha que é um oportunista, mas não lhe vai doer. Por não ter consciência disso. Um canalha não se reconhece como tal. Pode barafustar porque usaram uma palavra depreciativa que vem no dicionário, mas não sente na carne porque não o sente na consciência. Tal qual acontece com um estúpido. Se apelidar alguém que o seja de estúpido, pode até reagir contra com veemência ou mesmo fúria, mas na verdade não vai sofrer muito, não vai compreender. Não tem consciência. Talvez por isso haja tantos de consciência tranquila. Ao contrário das pessoas que conhecem as suas fraquezas: apesar de poderem possuir um grau mínimo de estupidez, a consciência dela é tal que ficarão magoadas se as injuriarem. Aqui reside a razão de alguns autores e pensadores concluírem pela felicidade dos estúpidos. A inconsciência dos defeitos serve de blindagem ao sofrimento.