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27/03/2024

Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro III

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No Domingo de manhã acordámos cedo com a maravilha de vista para as colinas do vale do Côa. Abaixo, visto da janela, o jardim onde um dos gatos da casa fazia de conta ser panda no topo dos ramos da oliveira. Depois de um agradável chuveiro fomos tomar pequeno-almoço. Ao olhar para a mesa o primeiro comentário: parece que adivinharam tudo quanto gostamos. O café feito no momento em cafeteira de vidro de prensa francesa, como usei tantas vezes em novita na casa dos meus pais no tempo em que vivi em Gaia, sumo de laranja natural, pão e croissants frescos, queijo fresco e curado amanteigado, carnes frias, travessa linda de fruta, e broas de mel. Um pormenor: iogurte grego sem açúcar a que juntamos compota de figo e ameixa para adoçar. Delícia.


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20240317_121353.jpgDepois de descansar do manjar matinal, partimos a pé para o Museu do Côa. Pelo caminho campos verdes com muitas oliveiras, bordeados a muros de cerca de um metro de altura feitos de lajes de xisto mescladas de cinzento, dourado e castanho-escuro, encasteladas em bonito desenho. Muita erva verdejante e flores campestres em quantidade atenta a época do ano. Caminhando estrada fora passámos por ovelhas a balir, bois a mugir, cães de guarda acorrentados a latir e uma matilha de cães rafeiros soltos e silenciosos atrás duma cadela com cio. Alguns carros que se passavam para a outra faixa ao cruzarem connosco – íamos em contramão, salvo na lomba, como mandam as regras de segurança de peões, tal como seguíamos em fila indiana quando sentíamos a aproximação de um carro. Um dia bonito numa belíssima paisagem digna para passear de mãos dadas como namorados bem-dispostos.


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O edifício do Museu integrado na paisagem alberga além da exposição das réplicas e explicação multimédia das gravuras rupestres, uma exposição temporária de Paula Rego – sou uma mulher de sorte; oh, se sou. E foi por aí que começámos, comigo encantada. A relação com a pintora tem vindo a evoluir: quanto mais conheço mais gosto dela. Usámos a aplicação da áudio-descrição disponível no telemóvel para seguir os quadros. Estamos habituados a vê-la pelo grotesco e o insólito, isso está patente na primeira sala, com a efabulação de pessoas-animais. Parece fácil, mas é tudo menos fácil. Quando passamos para os conjuntos de litografia da sala seguinte percebemos quanto trabalho e estudo ali está, quanta técnica, quanta arte. Uma maravilha. Saí de coração cheio. Na última sala a série habitualmente denominada Aborto que gostei de conhecer e reforça a ideia desta artista-mulher nada alheada como à primeira vista poderia parecer, antes uma artista comprometida com o seu tempo e a condição humana, que não é uma abstracção ou delírio de literatos arrogantes e insensíveis, mas uma realidade palpável.


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Em seguida tentámos almoçar mas percebemos que não havíamos reservado: o restaurante do museu estava cheio. Deixámos reserva para uma hora mais tarde e fomos visitar a exposição da arte paleolítica, que não dispensa para os mais interessados a visita às próprias rochas gravadas. Ficámo-nos pela visita às salas do museu com as réplicas e a informação interactiva dos painéis expostos. Usámos uma vez mais áudio-descrição, mas não consegui ter paciência para tudo. O Nuno lá ouviu tranquilo a informação sobre a arte do paleolítico. A mim que não o distingo do neolítico não sabendo nada da pré-história é um tanto estucha. Além de mais confesso que mesmo com a áudio-descrição não consegui ver nada do que descreviam na orelha nas réplicas das rochas. Achei piada apenas a ver as amostras de pedras e à técnica de incisão: com um material mais duro riscar a superfície mais macia através de linhas, ponteados ou preenchimento. Às tantas estou a dizer asneiras, é melhor abster-me de continuar.


Vista a exposição fomos ao restaurante, escolhi cordeiro porque sou uma camela infanticida. É sabido que carne com ossos é péssima escolha em restaurantes por ter que andar a lutar com os bichos no prato, além do que se olhar bem as pequenas ovelhinhas em vida nos prados, fico com natural complexo de culpa. Esperei cinquenta minutos e vinha acompanhado de migada de batata com grelos. O restaurante que tem uma belíssima vista estava cheio de famílias a gozarem o passeio de Domingo ensolarado.


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E viemos embora a pé de novo, de mão dada pela estrada fora. Para lá não nos tínhamos cruzado com ninguém a pé, no regresso encontrámos duas mui jovens estrangeiras a falar inglês, que amáveis nos cumprimentaram com o portuguesíssimo boa tarde. Uma caminhada num dia cálido de Março, terminada a subir ao Miradouro de Santa Bárbara.


Ao relatar ao meu pai as nossas andanças de comboio e a pé em Foz Côa, comentou que éramos muito ecologistas, climáticos – aproveitou para gozar comigo de dizer que sou climática de temperamento – e estranhou que nos tivéssemos esquecido das latas de tinta para atirar ao comboio turístico em defesa do ambiente. Pensando bem, já que estivemos numa exposição de pintura, teria sido mais moderno como alvo da nossa indignação contra as alterações climáticas. Por falar nisso, creio já ter demonstrado que estava um dia lindo de anúncio de Primavera – uma das tais estações que os jornais dizem ter deixado de existir.


(continua no post do dia seguinte, depois do vídeo de música)