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08/03/2024

A anedota do País pobre III


 


Termino a ronda de três postais ilustrativos da anedota do país pobre numa altura que além de estar ciente em quem não vou votar, sei também em quem vou votar – gosto pouco de agressores e por mais que o PSD seja a minha inclinação natural e possa nutrir alguma simpatia por mensagens positivas e agregadoras, não compactuo com bullying, ainda que dissimulado, nem acredito que o país vença os desafios que aí vem com fezadas em baixas de impostos.


Posto isto volto aos dados estatísticos. Como nota prévia informo que os elementos recolhidos na Pordata referem-se quase todos aos anos de 2021 e 2022.


No nosso pobre país – na narrativa de português videirinho desde o cidadão comum que quer obter algum subsídio ou privilégio individual à custa da omissão de rendimentos ou benesses ao político sedento de poder a qualquer custo sem nenhum compromisso de serviço público passando pelo jornalista ou comentador sem qualquer critério de verdade ou justeza tal é a vacuidade e necessidade de protagonismo – morre-se um pouco mais tarde do que no resto da Europa. Os europeus no conjunto têm uma esperança de vida de 80,7, os portugueses de 81,7 anos. Tal como temos uma taxa de mortalidade infantil menos dolorosa (2,4%) do que a europeia (3,2%)


Porém há factos que nos penalizam: no nosso pobre país pagam-se piores salários do que a média europeia. Em Portugal recebe-se menos pelo trabalho, em paridade de poder de compra, do que na Europa: 12.647 euros para 16.594. O rendimento médio português por tipo de agregado familiar é baixo face ao europeu seja de quem tem pouca escolaridade (10.603 para 16.851 euros), média (13.257 para 20.222 euros) ou superior (19.240 para 29.519 euros. Além de mais em Portugal há mais desigualdades na distribuição do rendimento (na Europa o rendimento dos mais ricos excede 4,7 vezes o dos mais pobres, em Portugal excede 5,1 vezes).


Vejamos agora os impostos. Se a pergunta for: arrecada Portugal maior receita pública através de impostos sobre a produção e importação (IVA) ou de impostos sobre o rendimento e património (IRS e IRC) do que a média europeia? A resposta é dúplice: em matéria de impostos indirectos a carga fiscal é maior em Portugal (34,1% face aos 28,8% europeus), mas quanto aos impostos directos (sobre o rendimento) Portugal tem uma média de 24,2% e a Europa de 29%.


Ao contrário do que poderia parecer em Portugal há menor percentagem (9,2%) de pessoas a viver em casas sem divisões suficientes para toda a família face ao todo europeu (16,8%). E está na média quanto a divisões por pessoa. Já quanto ao estado das casas Portugal está mal colocado, já que 25,2% dos portugueses vivem em casas com deficiências (ex.: infiltrações de água).


Estamos bem quanto à contabilidade dos agregados familiares com adultos a trabalhar menos de um quinto no ano (5,6% nossos contra 9,3% europeus).


Estamos bem (se é que isto se pode dizer) por incrível que pareça, neste país sempre descrito como pobre, quanto à percentagem de pessoas com rendimentos inferiores ao limiar do risco de pobreza ou que vivem em situação de privação material severa ou em agregados com intensidade laboral muito reduzida. Um pouquinho melhor do que a média.


Já não se pode dizer o mesmo quanto à percentagem de pessoas que não consegue aquecer a casa. A média europeia está nos 9,3%, Portugal nos 17,5%.


Ainda assim somos mais proprietários do que os europeus no cômputo geral: Portugal tem 22,2% de inquilinos face aos 30,9% europeus e há 77,8% de proprietários face aos 69,1% europeus.


Quanto aos países com maior ou menos percentagem de pessoas sem dinheiro para a alimentação básica, estamos bem colocados com 3,2% nacionais contra os 8,3% europeus.


Relativamente a percentagens superiores a 40% com gastos na habitação como renda, contas da água, electricidade dos inquilinos e proprietários, Portugal está bem posicionado: 5,0% dos portugueses gastam mais de 40% contra 9,1% dos europeus no conjunto.


E agora vejamos em que é que os portugueses gastam ou não gastam dinheiro comparativamente com os europeus no cômputo geral. Portugal gasta mais com alimentação (18,1% face aos 14,3% europeus), em restaurantes e hotéis (11,2% face aos 6,6% europeus) e menos em lazer, recreação e cultura (5,1% face aos 8,0% da Europa no conjunto).


Podia pesquisar mais índices e ter escrito um postal mais esmerado evitando as repetições de termos - e quem sabe erros de interpretação atento o pouco tempo em que o escrevi -, envolvendo os números num texto mais cuidado, mas não tenho tempo. Até porque amanhã de manhã vou visitar uma casinha modesta que está à venda e convém gozar do período de descanso para devanear com os passeios de comboio de fim-de-semana que tenciono fazer nos próximos anos por terras do Interior de Portugal. Mais um plano de futuro – daí o mapa ferroviário nacional publicado há dias -, à semelhança daquele de fazer algumas viagens lá fora, que já fiz, ou regressar ao Algarve, onde já regressei, ou voltar às salas de cinema, às quais já voltei. Havia o “há mais vida para além do défice”, agora digo: há mais vida para lá da baixa de impostos, nesta anedota de país pobre.


Bom fim-de-semana.