Abaixo recordo o post que abriram ontem. Sejam fruto de pesquisa aleatória no Google, revisitados por mim sem que fique na memória (acontece) ou aberto por mãos alheias por alguma curiosidade, aparece sempre um ou outro post antigo aberto nas estatísticas. Apesar deste blogue ser bem recente, afinal ainda nem tem quatro anos, já daria para uma nova rubrica: "O post aberto ontem".
*
Foi um dos piores insultos que troquei em criança e à época sem grande consciência: cabeça grande. À conta dele levei o maior estalo da minha vida. Pior do que as mágoas próprias, são os traumas dos outros e a minha eterna falta de tacto. E vem isto a propósito exactamente de traumas. Se quando era criança não tinha consciência de que habitualmente as cabeças nessa fase da vida são desproporcionais ao tamanho do corpo, em adolescente comecei a sentir algum incómodo com isso. De tal forma que me sentia desconfortável com uma pequena fotografia minha em criança na praia pespegada na estante da sala, na qual se notava a dita desproporção, talvez com efeito aumentado pela perspectiva da lente. O certo é que a fotografia lá estava e todos a pareciam achar engraçadinha, tirando eu: hum, cabeça grande.
Na faculdade não usei a palermice do traje nem fui praxada - bastou-me olhar fixamente por uns segundos para uns meninos que vinham com ideias, para tirarem o cavalinho da chuva. Mas no último ano a Eca deu-me a bengala e a cartola, e usei-as na Queima das Fitas. Já tinha idade para ter juízo, porém como não tinha invejava as cabeças pequeninas de várias colegas. Achava muito feminino, o arzito de fragilidade. E irritava-me a medida ampla da minha cartola, que enfiada em duas das colegas vinha-lhes até ao nariz. Comentário: ah, Isabel a tua cartola é como a dos rapazes. Não, não, é maior do que a minha, dizia um traste. Aquilo moía-me, tudo me soava a insulto.
Foi preciso passarem alguns anos, estabilidade emocional e o sempre bom tempo do Nuno para me dizer: tu és parva? Já paraste dois segundos para pensar porque tens o crânio maior?
Claro que a ilação não é tiro e queda e o assunto daria pano para mangas. Mas certo, certo é que as raparigas (e os rapazes) arranjam sempre maneira de sofrer por palermices absolutamente escusadas.