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06/07/2023

Recapitulando




Sensatez


- actualizado -


por Isabel Paulos, em 29.04.23

 




Toca a tentar mais umas linhas irreflectidas. De chofre. Afinal ainda há dias, depois de escrever o último texto do género, pensei que devia tentar engrenar e conceber qualquer coisa - hesitei em escrever obra, história e algo, porém obra é pretensioso, na história cansam os enredos e algo é poucochinho. Mas lá terei de arranjar termo correcto para definir o que faço, sem ser redigir linhas ou textos. Diria pensamentos se não fosse pueril, diria crónicas se o catálogo me coubesse. Diário, talvez tudo se resuma a diário. Ou simples notas soltas. Cai-me melhor. Não é importante agora, já dediquei seis linhas à casualidade. Abramos outro caso a apreciação. Hum, qual? Não sei mesmo. Pensei na conversa com o M. de há uns dias, mas ia cair no meu criticismo de sempre, mais uma vez admitido em diálogo. Passo sempre estas fases em que compreendo o quão pouco acrescentam pessoas gananciosas que se têm em grande conta. O M., como de costume, referiu meia-dúzia de nomes de pessoas cuja opinião ouvia e lia e um tédio enorme apoderou-se de mim. Tudo é redondo e fútil. É uma sensação comum a muitos que se cansam dos excitados interesseiros que ocupam o espaço público. Progressivamente fui deixando de lhes prestar atenção. Ainda há um ou outro que me levam tempo precioso, mas também esses irão à vida, mais rápido do que imagino, presumo. Dou crédito inicial por mais reservas sinta, retiro o aproveitável e passo adiante que se faz tarde para perder tempo com malabaristas. Cansada de gente falsa, arrogante e pretensiosa que se toma por esclarecida, capaz de entender o mundo e a todo o momento através da opinião enviesada e viciada se limita a engrenar na disputa do poder pelo poder. Pelo jogo, pela diversão, pela vaidade. Alguns no meio de tudo isso fingem procurar a luz da simplicidade para descanso da consciência. É tão só isso, um refúgio. Jamais renegam ao mundo do interesse, do artifício, da hipocrisia. Dissimuladamente fazem de conta que apreciam a lado honesto da vida, todavia limitam-se a achá-lo fofinho e caricato. Um apontamento bucólico a cortar o tédio da paisagem. Gozam de eterno desdém pelo verdadeiro, que consideram fraqueza e menoridade. Tomam-no por ignorância. Podem ficar onde estão. Longe. Bem longe. A distância que nos separa será sempre abismal. Adiante. Venha mais um caso à apreciação deste colectivo de juízes que é cada um de nós. Ah, e tal e coisa, não devemos julgar os outros. Ah, a verdade é relativa. Ah, todos temos imperfeições. Ah, a pluralidade de opinião é fundamental. Quanto mais o afirmam, mais julgam dissimuladamente, mais tecem e manobram na sombra a teia dos interesses e privilégios próprios ou de poucos, fazendo passar este jogo sórdido por defesa da democracia. Na aparência da tolerância criam uma sociedade desdenhosa. Incentivam sub-repticiamente os ódios latentes na sociedade, as invejas, os ressentimentos. Escarafuncham-nos para provocar mais dor e fazerem-se notar por contraste, para realçar a sua suposta superioridade moral e intelectual. Na aparência da tolerância, acicatam a violência: fazem de conta que combatem o ódio apenas na busca de maiores audiências ou do voto supostamente moderado. É a arte da farsa. A vitória da esperteza e do oportunismo alçados a sofisticação e do argumento a valor supremo de tolerância. A imposição do respeito por espertos demagogos de retórica fácil que aproveitam a apatia e silêncio de muitos para cativar os excitáveis e sempre mais interventivos e barulhentos. A vitória da ruidosa maioria das controvérsias, das questiúnculas, das causas rentáveis, da manipulação e culto da indignação sobre a discrição do bom senso e da busca do melhor para todos. A vitória dos interesses de alguns em prejuízo do todo, nunca abdicando de interesses próprios em benefício do bem maior. Desde a base ao topo de pirâmide da sociedade disseminou-se a farsa da esperteza e do oportunismo. É a derrota da inteligência e da sensibilidade, sempre desdenhada e descartada por não vender nem inflamar.  


 





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Crapô


por Isabel Paulos, em 05.06.21

 




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Entre outros jogos de cartas em criança e adolescente joguei muito Crapô - uma espécie de Paciência disputada por dois jogadores. No mundo das cartas há um sem-número de expressões usadas, herdadas de antigos parceiros de mesa de jogo. O Crapô era sobretudo pretexto para longas conversas com os meus compinchas de serão: avó, mãe e primo.


Lembrei-me disto a propósito de uma expressão que a minha mãe usava quando na minha vez de jogar e havendo casas abertas, mostrava os passos todos - provando que era possível a jogada -, em vez de ir directa à conclusão, não insultando a inteligência da adversária. Dizia a minha mãe que se a sô dona L.W. ali estivesse me diria para não fazer joguinhos infantis. Referia-se à companheira de Crapô no Uíge.


A escrita e a opinião também têm joguinhos infantis. Temo até que na maior parte das vezes não tenham mais do que isso mesmo. A obsessão da enumeração dos factos – os necessários e os inúteis - para conferir aparente seriedade às opiniões sujeita o mundo actual a um enorme e emaranhado dilúvio de argumentos supérfluos. E a reacção das pessoas que não estão viradas para joguinhos infantis acaba por ser a do gato do anúncio face à conversa da dona que lhe traz whiskas saquetas: obviamente, desliga para o Vaticano até ouvir o sumo do diálogo.


Consciente que no mundo actual vale a gestão das minudências e do supérfluo, quem não souber memorizar e digladiar argumentos supostamente fundamentados mesmo que forjados, estará votado à desconsideração. Factos existem para todo o gosto e feitio, vingam os floretes e oratória – conclusão a que cheguei na adolescência ao assistir ocasionalmente à verborreia argumentativa em lugares em que se dizia dar valor à opinião. A atenção a estas nuances terá contribuído para que começasse a lidar mal com o contraditório - megera me assumo.


Claro que a falta de consistência também existe. O passar um conjunto de cartas para uma casa aberta, sem demonstrar possibilidade da jogada, colocando-as duas a duas nas outras também abertas previamente, pode ser abusivo e enganoso por não ter fundamento (suficientes casas abertas) e estará dependente da seriedade de quem faz a jogada e da atenção do outro jogador verificar a sua legitimidade – será batota?


Este texto não é dirigido a ninguém em especial, nem crítica a ninguém em especial. É tão só uma constatação do absurdo argumentativo em que se transformam trocas de opinião aparentemente informadas e sofisticadas. Se esvaziássemos todo o supérfluo dessas discussões veríamos que a verdade e o essencial estão bem longe, e cada vez mais longe e arredados do que vinga no mundo.


No fundo, no fundo este postal é capaz de ser tão só saudade dessas jogatinas e do tempo em que me divertia com a Batalha Naval e a Bisca na escola ao invés aglutinar conhecimento como seria suposto. Deve ser isso. Nunca fui grande aluna nem jogadora, mas sempre aproveitei o momento e tentei dar atenção ao essencial.