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23/07/2023

Domingo

Gostas das madrugadas e das manhãs.


Gostas da vida.


E de mesinhas de cabeceira.


Ah, pouca-vergonha. Ah, exibicionismo. Devias aprender a disfarçar a exibição dando o ar de tratar do mundo alheio, mesmo que na verdade nunca chegasses a sair de ti e do teu umbigo nem fizesses esforço para tal. Isso sim, seria digno de apreço. Isso sim, daria ideia de préstimo. Agora isto de estares do lado de fora sem que se compreenda ainda não convence, não cola nas certezas do tempo.


Mesinha.Cabeceira


Os livros? Salvo um, estão ali há meses, crês mesmo que alguns há mais de um ano. Todos por acabar. Os que são lidos à primeira, chegam e partem para o arquivo vivo. Os que ficam são os mais custosos. Mas lá acabam por ser digeridos.


Nos últimos meses há um que vai devagarinho à medida que outros são devorados rápido. Houve um interregno de quase dois meses em que praticamente não leste livros. Acontece-te muito. Uma releitura especial tem-te de novo confirmado quanto do que idealizas foi pensado e repisado por gente que mais não fez na vida senão reflectir. Perguntas-te onde foste buscar tais pensamentos. Ah, asneira outra vez: as descobertas naïf nunca se trazem à luz do dia, deverias dar o ar de nascida a perorar lição. Quando muito deverias transformar cada nova descoberta numa exposição de perplexidade bem simulada e bem estudada para aparentares astúcia e requinte. É assim que se finge, menina. É assim que se mente, menina. É assim que se aparenta conhecimento e talento inexistente. Ah, e não te devias esquecer das gracinhas mimetizadas em grupelho de desprezo pela simplicidade ou suposta ignorância alheia. Isso sim, seria digno de apreço. Agora valeres por ti própria e expores o que se passa na cabeça do comum mortal é coisa pouca para o mundo da ilusão de valor. Ralé da ralé. Nunca aprendes, menina. O mundo é dos espertos e dos fingidos.


O Presépio? Está ali há anos. Com algum exagero cerca de 2000, dizem as más-línguas. É só uma família, outro aspecto de somenos importância. Não liguem, pormenores insignificantes. No Natal passado deste um igual à tua enteada.


O aspegic? Engana estar ali, porque é raro teres dores de cabeça, mas ficou à vista. Calhou.


A água? Sempre esquecida por te levantares para ir beber. Porém, nos dias em que lês em voz alta a garrafita ao lado sempre ajuda para aclarar a voz.


O radio-despertador é uma reminiscência dos anos 80 (ou terá sido ainda na década de 70?, foi na passagem de década). Lembras-te de encomendares o primeiro à Eca quando tinhas sete anos. Pagaste-o com notas de escudo dos presentes de aniversário e Natal. Há muito tempo não consegues ouvir rádio neles, atento o mau som (para isso há outro), mas serve-te para ver as horas. Nos últimos anos já não ajuda como antigamente para ir vendo passar as horas (e como passavam umas atrás das outras) porque adormeces rápido, cansada. Não tens insónias há anos. É uma outra vida nascida há 16 anos. Mais dois e atinges a maioridade nesta segunda vida.


O coração vermelho? Oferta da tua mãe por saber que tu achavas piada à piroseira. Mais uma vez a cumplicidade no direito ao apontamento piroso.


A caixinha? Presente do Nuno onde guardas vários pares de brincos que quase nunca usas. Só em dias especiais.


*


20230723_111907 


Adenda. Agora com luz natural. Preciosismos. Coisas de coca-bichinhos. Insignificâncias muito maçadoras que não têm o menor interesse. A ti interessam os reflexos da luz e as sombras dos objectos nas paredes (céus, como gostavas de saber pintar; escreve menina, escreve como se pintasses ao som de boa música). Quantas horas da noite e madrugada passaste a observá-los enquanto pensavas. Tudo muito aborrecido, tudo inspirador de muitos bocejos aos sábios. Um tédio para os iluminados. Às vezes, raras, a perspectiva desencadeia ódios. Ontem lembraste-te de alguns ódios que despertaste. É a vida. Não há como evitar. Os que comungam contigo da bendita dúvida e maldita indecisão passem à frente, não se cansem com estas inutilidades; isto só complica a vida. E vós, sábios, continuai a troco de audiência e protagonismo a dar lições forjadas que não interessam nem ao menino Jesus, mas fazem muita vista. Como bobos da corte ajudais a entreter, a passar o tempo. Cada macaco no seu galho.