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10/07/2023

O que é esta segunda-feira?

Dei por mim a perguntar o que é a perspicácia. E congeminei duas ou três ideias – como é costume já esqueci, mas lembrarei umas linhas mais adiante. Antes vou abrir o dicionário para ler a definição. Volto já. [Poucos minutos depois] Já fui e corrijo a frase anterior: antes vou abrir o dicionário e o Google para procurar sinónimos, definição e significado. Já li. Só este pequeno exercício de uma vida, antigamente em dicionários físicos e enciclopédias, agora nas páginas da Internet, dá azo a um mundo de extrapolações – e esta última palavra é pelo seu significado a palavra exacta que pretendo usar.


Mas vou ignorar o que li agora – é-me suficiente falar do exercício simples e lúdico que me acompanha desde as madrugadas da meninice. Passo ao que me trouxe inicialmente a este texto. Comentei hoje muito mais cedo que não era perspicaz. É uma afirmação como outra qualquer. Logo de seguida comecei a correr mentalmente conhecidos e desconhecidos com quem me cruzo ou cruzei para começar por considerar que a perspicácia é uma qualidade rara – tive dificuldade em reconhecê-la numa pessoa que fosse. O passo seguinte foi colocar a hipótese de estar a ser demasiado exigente. E logo depois usei o método comparativo. Aí sim comecei a descobrir gente perspicaz. Ou seja, só quando comparo, compreendo a diferença e com ela a qualidade. Logo daqui se percebe quão balelas podem ser aquelas tretas de não devermos comparar. Como? Se tudo no mundo é medida? Como? Se toda a matéria do Universo resulta da diferença de medida?


Recordei três pessoas que ouvi muitas vezes. Duas são menos perspicazes, uma é mais perspicaz. Tentei compreender a razão do meu juízo e cheguei à tecla de sempre.


A primeira não é perspicaz por apesar de instruída e culta substituir a elasticidade e abertura mental por aquilo que já aqui muitas vezes chamei: gavetas cerebrais arrumadinhas. Pessoas assim definem na sua mioleira categorias e etiquetas para tudo e assim que consomem ou assimilam qualquer item novo - pessoa, objecto, facto ou ideia – arrumam na gaveta pré-definida sem questionamento (só gatilhos). Muitos conservadores, nem todos, comportam-se desta forma. O maior defeito aqui está na desconsideração pelo sentido ou justiça dos julgamentos quando se opina ou decide. Apesar de parecer resolver problemas com maior facilidade, está apenas a catalogá-los e não a compreendê-los, não a ser perspicaz, mas ainda que a qualidade do seu conhecimento e arte seja duvidosa a imagem que passa é a de pessoa confiável e, por isso, respeitável aos olhos de quem tem poder.


A segunda não tendo o background da primeira por uma questão de educação é ainda assim instruída em vias de se transformar numa pessoa culta. E tem a vantagem sobre a primeira de ser muito mais rápida de raciocínio – o que daria a ideia inicial de perspicácia. Sucede que é muito permeável às marés do tempo cavalgando as suas ondas com sucesso. Caracteriza-a a vontade de agradar à maioria e o êxito nessa empreitada, ainda que a custo de ódios residuais. Apesar da aparência aqui nem se coloca a questão do sentido ou justiça por essas preocupações estarem arredadas do espírito do sujeito. Neste caso o poder respeita-a por temor. A esperteza e capacidade de influência e não a perspicácia impõem respeito.


A terceira pessoa será a que, apesar de instruída, menos aparenta ser culta. A que comete erros que os conservadores e os espertos, em regra, não cometem. Apesar disso é a mais preparada por ter o espírito mais aberto e capacidades lógicas e analíticas que nenhuma das anteriores revela, por ter avidez de conhecimento e por se questionar a cada momento. Está em processo evolutivo. Nem sempre é justa nas avaliações, porém estas quase sempre têm um sentido que a primeira e segunda não encontram nem entendem quando explicado: uma porque cristalizou no tempo e nas certezas dos catálogos, outra por não ver correspondência com o mais atraente ou fácil.


Bem sei que os dicionários fazem corresponder esperteza e perspicácia como sinónimos. A mim aparecem-me em planos distintos, valorizando mais a segunda.


Por falar em sinónimos e em dicionários, há umas semanas ando para fazer uma referência aos dicionários online. Não tenho paciência para pedantismos nem sequer sou muito criteriosa nesta matéria. Uso por sistema a Infopédia e não uso o Priberam, apesar de há anos tropeçar constantemente nele. Até me custa compreender que o país de origem seja Portugal. Hoje fui consultar a Wikipédia e vi que o Priberam tem dois tipos de consulta: português europeu e português do Brasil. Talvez explique o meu susto. É aterrador ver o sentido que se dá a alguns vocábulos. Não se admirem da confusão reinante online no mundo da escrita em português. É bem possível que aqui esteja uma das causas para cada vez mais me deparar com “conteúdos” lifestyle e postais em blogues nos quais se usa palavras absurdas no contexto: de sentido e significado completamente desfasado da intenção do autor. Bem sei que é realidade antiga no mundo físico com raiz no desconhecimento do sentido das palavras e vontade de dar “ar” evoluído, simplesmente, migrou para o mundo digital.


Lembro-me de há 10 anos (mais coisa menos coisa) alguém me ter dito que usava o Priberam. Fiquei preocupada tanto mais que a pessoa em causa era professora, explicadora e fez anos a fio trabalhos de tradução. Posso imaginar que esteja muito longe de ser caso único.