Ontem madruguei por ter adormecido no sofá após o jantar. Cedo conjecturei como seria bom se me reformasse agora – nos dias de férias cá em casa chegámos sempre a essa conclusão. O mundo além dos dias ocupados com trabalho ganha dimensão.
Ao fim da manhã sujeitamo-nos a sessão de uma hora no banco para actualizar dados. Há muito me pediam para o fazer. Havia protelado pela estucha que são nos últimos anos as deslocações aos bancos. Uma das provas que a tecnologia aliada à legislação e à burocracia está a complexificar, tantas vezes sem sentido, a vida do cidadão. Os inteligentes dizem tratar-se de agilização no contacto com as instituições e fomento à segurança nas relações comerciais e financeiras.
Fruto do acaso quem nos atendeu foi o director da agência. À segunda pergunta descabida e sabendo que antemão que as instituições bancárias actualmente fazem perguntas inadmissíveis aos clientes, alertei que não ia responder a questões abusivas. Coibiu-se de me dizer que eram normas legais a impô-lo. A última pergunta desse espiolhar de miudezas foi se teria familiares expostos pública ou politicamente. Disse-lhe que não. E pensei para mim: caso não tenham reparado nestes tempos conturbados a maioria da população mundial está exposta pública e politicamente, mas indo ao sentido da pergunta: não, nesse aspecto e felizmente, entre os próximos só há gente de juízo.
Reclamei do meu banal cartão de débito ter deixado de funcionar para compras online. Depois de muito tempo a ajudar, tentando resolver o problema de forma alternativa, explicou-me que o sistema de segurança 3D secure está a ser "descontinuado" e que agora teremos de possuir obrigatoriamente a aplicação do banco para autorizar essas transacções. Aqui sim, invocou as directivas europeias e necessidade de segurança acrescida. Nem vou fazer comentários sobre a “segurança acrescida” para não perturbar as certezas dos sábios do mundo moderno, limito-me a contar que uma das primeiras coisas que disse na conversa com funcionário do banco é que não tinha nem ia instalar a aplicação para 45 minutos depois lhe perguntar resignada: isso é só instalar a aplicação, não é? Ao que se seguiu da sua parte prestável explicação dos passos. Resumindo: muita garganta minha para me resignar pouco depois. Fez-me lembrar uma viagem em grupo há muitos anos: armada em carapau de corrida comentei à partida para férias: não entro no McDonald’s, para depois passar as ditas a alimentar-me de cheeseburgers e sundaes. Talvez a mesma razão leve gente que conheço e me é querida a negar-se vestir jeans – nessa mania nunca caí, aliás nem saberia viver sem eles. Saí do banco, agradecendo a ajuda.
Mas isto são realidades de gente pouco inteligente e vencida. Os vitoriosos espertos e valentes das duas uma: não se resignam e mantém-se a viver no século XIX ou aderem de olhinhos fechados invocando os fantásticos benefícios da modernidade. Bom, num caso ou noutro, uma coisa é certa: o que nunca se faz é dar parte de fraco. Há que aparentar sempre a vitória e conhecimento antecipado e completo de tudo. Dar testemunho do tempo é para fracassados.
Seguiu-se almoço num restaurante conhecido e pela primeira vez tive coragem de pedir embalagens para trazer o resto das travessas - mais de metade do que havíamos pedido. Segui o exemplo da vizinha de mesa. Visto o seu à vontade, perguntei-me: porque não? Porquê esta vergonha tonta e pouco sensata. E foi assim. Deixar se ser tonta é uma tarefa para a vida. Vai-se evoluindo passinho a passinho.
Seguiram-se mais burocracias que continuarão esta manhã. Ao fim da tarde vestimos fato de banho e fomos em direcção ao mar com grandes ideias. Mas o vento forte encaminhou-nos rápido para o Parque da Cidade, cada vez mais o nosso porto de abrigo. Assim, mais factos de registo só ter descoberto que uma das solas das sandálias confortáveis que tenho calçadas está partida, pelo que tenho motivo para comprar outras. São vidas muito complicadas, as minhas.
Mais uma vez porquê este tintim por tintim? Se passa a ideia de narcisismo e de menoridade? Por também ser isto - como tantos outros aspectos comezinhos trazidos à baila aqui no blogue -, que move os dias de muitos apesar de na superfície das vulgares redes sociais ou de espaços com maior pretensão intelectual nada de confiável se dizer do lado comum e mundano da vida – a menos que seja ordinário, aí diz-se com profusão -, transformando a vida quotidiana apenas em objecto de julgamento básico nas redes sociais e de exposição e “análise” informativa na comunicação social, como se fosse uma realidade externa, vivida por extraterrestres e não por gente comum, por qualquer um de nós, pejados como somos de qualidades e defeitos.
Num aparte a propósito termino só a comentar em jeito de desabafo cansado que há quem tente encontrar por detrás de quem vive com simplicidade grandes explicações e grande profundidade escondida. Há quem espere sempre um além do visível e singelo por o achar poucochinho apesar de pitoresco: na melhor das hipóteses atraente, na pior permeável a manipulação. Há quem não compreenda nada de importante da vida por tanto procurar interesse maior. Há quem seja frívolo e leviano por procurar valor onde ele não existe. Há quem não veja além da aparência. Há quem não saiba ver a profundidade senão no rendilhado argumentativo e sofisticado da ilusão. Hoje como há 130 anos, como há mais de 2000.
Talvez por isso se passar quatro horas a ler me esqueça dos nomes, lugares, datas e demais referências que figuram nos textos, mas não olvide por completo a ideia. Não cabe tudo na mioleira e há escolhas que têm de ser feitas. Não escolhas de facilitismo, à moda dos trabalhinhos ditos artísticos em que se desvirtua uma qualquer informação factual sobre a qual pouco se compreende para daí partir para a doutrinação, mas escolhas difíceis, conscientes da limitação, da incapacidade de abarcar tudo e por isso de tirar ilações correctas e justas. Vou tentando não dizer asneiras grandes com o pouco que vou compreendendo, apesar de poder incorrer em deslizes que as certezas fáceis não aceitam nem perdoam. São escolhas.
(Aproveito para agradecer a quem consciente ou inconscientemente me ajudou a pensar nas banalidades que acabei de escrever por duas razões: porque se deve agradecer e porque odeio o papel daqueles impostores gananciosos que usam e enganam premeditadamente outros para tirar vantagem. Por exemplo, criando online perfis falsos de pessoa comum e sem relevo para sacar informação em benefício próprio, tentando décadas depois - sempre pela sombra e ora pimbo-criativo ora erudito -, pintar quadros bonitos e agradáveis para amenizar o peso de consciência e continuar a tirar vantagem. Não há puros e estou muito longe de pura, mas lixo é lixo e não são elogios fáceis nem palavras bonitas e falsas que me comovem ou convencem do contrário – quem o faz deve continuar a ter-me por muito burra e a si por supra-sumo intocável. Lixo é lixo, a menos que se recicle com assunção clara da canalhice, sem "mas". Sem as patacoadas justificativas do somos todos imperfeitos e acusações convenientes ao falso puritanismo por mais divertidas e rentáveis possam parecer a palermas. Conversa mole nunca servirá de nada senão para vender pixéis no ecrã ou tinta em papel com mentiras medíocres; nunca terá valor. Quando muito servirá para regozijo de chanfradas que não largam a peúga.)