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08/07/2023

A última ilusão

Oito horas e os quarenta e cinco minutos seguintes passados de olhos postos nos cabeçalhos de um jornal e um portal. Nada me leva a abrir uma que seja. De onde vem esta falta de curiosidade ou interesse? Não tenho intenção de criticar, apenas compreender porque será que pareço ou parecemos adivinhar o conteúdo de cada "entrada" nos jornais e portais online. Só se nos forçarmos, tentando encontrar substância, nos predispomos a mais. Mas haverá mais? Ou será ilusão?


Décadas mescladas de sensacionalismo com irrelevâncias agora exponenciadas fazem-nos duvidar. Desacreditar que vale a pena o interesse por um mundo que deixou de pertencer e ser relevante a cada um para se transformar numa entidade asséptica na qual só a forma e o artifício conferem proveito. Um mundo que não sentimos como nosso e no qual, por isso mesmo e se quisermos ser lúcidos, deixamos de conseguir descobrir racionalidade para lá das vagas de estímulos momentâneos conducentes ao entusiasmo ou irritação, também eles previsíveis, dos poucos que tem uma réstia de sentimento de pertença ao mundo tão simplesmente por terem voz audível no meio de um chinfrim universal iludido de ter opinião própria e por ora passivo.


Curiosamente isto verifica-se no tempo das redes sociais, da globalização, das novas reinvindicações identitárias e do recrudescimento de várias causas tradicionais de contestação. Supostamente, no tempo da afirmação e emancipação individual. Que contradição. Logro de grandes mudanças e conquistas civilizacionais: ruidosa e perigosa passividade de massa uniforme de população que por nada de valor se interessa ou aspira e nada de muito concreto acredita, respeita e defende. Um perigo, um pré-aviso e anúncio de tempos difíceis.  


Vou tomar o pequeno-almoço. Bom dia.