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24/07/2023

O que esta segunda-feira?

Já sabem que este é um espaço um tanto fora do baralho e não disfarça esse deslize. Por isso, hoje, só baralhas, partes e dás algumas cartas, deixando o jogo aberto. Tanto mais que vislumbras mal as regras. Isto é, há dias em que julgas compreender o sistema político, o qual passaste a vida a observar, umas épocas com alguma atenção, outras com nenhuma, e há muitos anos estudaste nos livros e nos anfiteatros. Outros tempos. Noutros dias sentes-te perdida por compreender que pouco tem regra, salvo a das circunstâncias, por mais que os sábios de ocasião pareçam sempre arranjar lógica – a táctica para a infinita e aparente consistência é simples: deixar o tempo passar e fazer de conta que as contradições e enganos nas avaliações não aconteceram. Mas deixas os considerandos e passas às palavras que afinal hoje é segunda-feira.


O baralho de cartas de hoje contém as palavras “inveja”, “desdém”, “cobiça”, “crítica” e “justiça”. Cinco cartas, já dá para jogar ao Burro em Pé, que será a primeira partida de cartas aprendida em criança. Numa visão nada abonatória, mas é a que te apetece hoje espelhar: na mão do português está a vontade de ter as cartas do parceiro de mesa, o desprezo pelas suas qualidades e a ambição de ganhar o jogo. Acha que vai sair vitorioso por possuir o Às de Ouros - a “justiça”: sempre entendida por si, não como bem comum, mas como reconhecimento do valor e mérito próprios face aos demais. E embirra e sente-se injustiçado por ter na sua mão o terno de espadas a que dá tão pouco valor - a crítica -, que é o juízo moral ou intelectual sobre o comportamento do conjunto de jogadores na mesa, determinante no desenrolar da partida.


Como não estás a jogar fizeste uma pequena batota e espreitaste o monte. O último a ir ao monte teve azar, levou uma série grande de cartas e ficou uma data de anos burro por não haver paus. À bica está o duque de copas - a “democracia” -, para desgosto de uns e alegria de outros, que já se vêem a virar o jogo. Chama-se alternância, existirá sempre se o jogo apesar de viciado por batota ainda contiver os quatro naipes com 13 cartas cada e não for corrompida em definitivo por naipe único – o de copas, por exemplo, todo dado aos afectos e à abolição das desigualdades, com censura de ideias dissonantes.


Mas que interessam estas considerações todas se, em geral, os portugueses, por não gostarem de regras, nem repararam que não tem o menor interesse possuir um Às ou um Terno sendo o objectivo do jogo apenas assistir ao naipe da mesa e descartar o maior número de cartas mais rápido? Que interessa apelar ao bom senso se não é comum o português conceder no carácter fortuito e injusto da Natureza e predispor-se a agir em função das regras e do bem comum?


Não chegaste a ver as cartas dos outros, nem continuaste a coscuvilhar a sequência do monte para saber o futuro, por isso este postal acaba por aqui mesmo. Pedes desculpa por ter escolhido o Burro em Pé e não o Bridge, mas convinha para ser um postal em harmonia com os conhecimentos rasos das Comezinhas.