
Poderias dedicar-te ao pensamento e aos ensinamentos abstractos. Poderias até com bastante conhecimento de causa descrever o sofrimento, apelar à ideia de simultaneidade entre autoridade sobre-humana e esforço das criaturas terrestres na libertação. Mas não, não vais por aí. Dizes apenas que reparaste que as pregas das vestes do teu Buda (ou será da tua Buda?) estão impregnadas de pó. Um dia destes vai ao chuveiro. Preocupações comezinhas de quem não se pode dar ao luxo de chafurdar nas contrariedades da vida e bem sabe o quão vãs são as pregações de sapiência e mérito. Como o assumir de fragilidades e os relatos de superação só fazem sentido se não forem para impressionar ou para dar vazão a interesses mesquinhos.
O encontro leal contigo própria e com o outro prescinde de combates gratuitos de egos e lutas ridículas de bando. Por mais que corras o risco de te acusarem de dogmatismo sabes que só as brigas pelo que é verdadeiro valem a pena. Nestas quanto mais se perde - quanto mais se renuncia e sofre -, mais se dá de valor aos outros, mesmo que não vejam, mesmo que nunca compreendam ou reconheçam. Dessas nunca prescindirás. As outras, as fúteis e ofensivas, há muito não te dizem nada, ou melhor, maçam. Moem, mas não matam nem te demovem da caminhada.