
O almoço poderia ter sido um civilizadíssimo e tradicional faisão estufado – mas ainda não estamos na época; como se soubesse alguma coisa do assunto, sou mesmo farsola -, em boa e fraterna conversa de casa antiga. Ou quem sabe um pretexto qualquer feito alimento processado por mãos zelosas e empratado por uma estrela Michelin na companhia de pretensiosos dedinhos no ar. Todavia seria uma outra vida que não a minha.
Por aqui comemos um sucedâneo luso de feijoada brasileira, em rigor, uma mistela de arroz e feijão e carnes a que juntei chouriço de porco preto vindo do Alentejo. Trouxe-o a UberEats de casa despretensiosa de um casal de antigos professores da Rua de Camões, que imagino dados à poesia por chamarem ao restaurante onde nunca fui: Sonetos. Os meus informadores casuais, como também já aqui contei (sou muito repetitiva, até a mim canso; falta de assuntos interessantes, é o que é) são também trabalhadores de plataformas online de serviços de transporte. Fazem parte da realidade actual que é como é. Os proprietários dos Sonetos - não sei como seriam como professores -, como donos de restaurante têm gentis sinais de delicadeza e a comida não direi uma especialidade, apenas caseira e a preços acessíveis.
Reparem que não preciso inventar para tudo encaixar: a casa chama-se Sonetos, fica na Rua de Camões e os donos foram professores. Como direi? Estamos em Portugal, meus senhores. No seu melhor, mesmo. Sem ironia.
Saindo da lírica e indo para a conclusão prosaica: nas últimas duas semanas baldei-me a cozinhar e com isso já ganhei um pouco de peso, o que quer dizer que o efeito da cirurgia já passou e agora estou por minha conta e risco. Se não quero voltar a rebolar, devo recomeçar a portar-me bem, fazendo e aparando os meus próprios versos.