Durante o dia ocupado não arranjei motivo nenhum para pregar. O que me veio à cabeça agora? Uma nota que há uns meses tive intenção de aqui deixar e protelei. Mas, e agora? Como convertê-la em moralismo ou moralidade se já nem bem me lembro dela. Passa pela palavra sofisticação e quem lê as Comezinhas já deve estar farto do termo e do azedume com que a trato. Deveria perder um pouco de tempo a tentar explicar o que me causa repulsa na sofisticação – ou naquilo que entendo por, já que as palavras são caprichosas e cada um sente-as como sente. Imagino-a (à sofisticação) numa espécie de peanha de supérfluo e falsidade. Se tivesse cores andaria na conjugação de dourados e pretos, se tivesse textura e temperatura seria uma gélida mármore. Enfim, seria a triste lápide de quem já se passou para o lado de lá; de quem já não vive, mas faz de conta. Mesmo nos túmulos prefiro a rugosidade do granito - creio até que nestas ainda se respira.
É assim que passam por mim algumas leituras – as que tenho em mente no momento são femininas, mas calham bem nos dois géneros. Digo passam por mim, por ser isso mesmo. Nada de muito proveitoso fica, apesar de algumas serem escritas em português correcto – insípido nuns casos, com algum sal noutros, mas sempre usadas com a falta de jeito própria da leviandade seja ela mais ou menos instruída. O certo é que têm saída por vezes pelo picante da maledicência, outras por curiosidade pelo dito obscuro ou secreto, outras ainda por despertarem discussão acesa e lúdica. Atribui-se à conjugação destas características o epíteto de matérias interessantes (à moda brasileira). Têm pique. Lidar com pensamentos e sentimentos tidos por interditos - revelados no momento pelo autor(a) como se em êxtase de inteligência superior fosse explicar à turba de bárbaros o que é a civilização - é receita certa para vender e colher boa crítica. Em muitos casos estas abordagens são entendidas por manifestações de liberdade.
Sucede que na maioria das ocasiões não há nem houve interdito algum, apenas formas de abordagem ao longo dos séculos mais ou menos escancaradas e o que vende é o espalhafato ou a crueza do estilo e não a liberdade propriamente dita.
Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.
E pronto, as moralidades hoje são estas. Noutro dia mais adiante tentarei concretizar.
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Posts anteriores desta série.
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- Moralidades à quinta-feira, de 22 Junho 2023;
- Moralidades à quinta-feira, de 15 Junho 2023;
- Moralidades à quinta-feira, de8 de Junho 2023;
- Moralidades à quinta-feira, de 01 Junho 2023;
- Moralismos à quinta-feira, de 25 Maio 2023.