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11/07/2023

Diário

Ontem e hoje em circunstâncias normais seriam dias para o salto a Almada, mas havendo greve na CP desistimos. Desta vez, ao contrário das anteriores, não asseguraram que apesar da greve os comboios a usar não fossem suprimidos. Aproveitamos assim para começar o dia de ontem indo à Loja do Cidadão do Arrábida Shopping na intenção de pedir novos passaportes. Não obstante só precisarmos deles em Outubro e atenta a demora na emissão nos meses de Verão, resolvi tratar já, com antecipação folgada. Sucede que quando lá chegámos já não havia senhas. Acabei por agendar em casa deslocação à Conservatória do Registo Civil. Tentei fazer uma marcação para outros assuntos, mas não correu bem. Amanhã insistirei. A propósito não resisti a passar os olhos pelos meus dois passaportes caducados: o primeiro de 1998, o segundo de 2005. Mais do que os destinos o que me despertou a atenção foram as fotografias e a assinatura. A resolvida, viva e determinada da primeira imagem obscureceu na estranheza e na doença. Uma hecatombe – ai as hipérboles; serão mesmo exageros? - abateu-se sobre mim naqueles anos: de saúde, profissional e afectiva. Adiante.


Livro&Lego


 


Seguimos para o hipermercado Auchan, onde além dos ingredientes para almoço e jantar, comprei um Lego de auto-caravana e o livrinho Uma Paixão Simples, de Annie Ernaux. Li as primeiras páginas ao acordar e terminarei à tarde na praia; a intenção é tão só conhecer a Prémio Nobel e já percebi que a apresentação não me vai ser tão penosa quanto julgava, o que não é mau.


CaféSalgueiros


 


Em seguida fomos tomar café numa esplanada da Praia de Salgueiros, em Gaia. Conversa mais ou menos fácil a três. Quando comentava reparar nos outros e, em especial, no Nuno, o aproveitamento do conhecimento do ensino secundário e no meu estranho desconhecimento de tantas matérias simples por a maioria da aulas de então me terem passado ao lado, ouvi a minha mãe dizer: pois, prioridades, o importante era a Natureza. Rimos os três. Para que se entenda a Natureza era um baldio com meia dúzia de pinheiros junto do liceu, bastante poluído de detritos ligados ao consumo de drogas, onde estive algumas poucas vezes com amigos, e não, nunca me dediquei a essas vidas senão como observadora e amiga. O importante para mim à época não era essa Natureza, mas a dos cafés, da conversa, da leitura, dos devaneios e dos amigos. É uma outra forma de crescer e amadurecer. Aí sim, perdi e ganhei a vida na treta, deixando passar ao lado a mais padronizada aprendizagem naquelas idades, cumprindo os mínimos que me eram exigidos, mas não comprometendo a normal entrada na faculdade aos 17 anos. Hoje à tarde voltarei a Salgueiros apenas com o Nuno para nos deixarmos esquecidos num pedaço na areia em frente ao imenso mar parado lá longe sempre tão igual a contrastar com as águas remexidas e ponteadas de rochas a anunciar a proximidade e presença de terra e da nossa vida. Antes de regressarmos ao Porto para um jantar fora de casa mais esmerado. A data especial assim o pede.


SaiaEBlusa


 


E apenas no presente parágrafo hesito na exposição. Porquê? Ontem a meio de tarde de novo saí com a T.. Desta vez fomos fazer compras numa loja de roupa em segunda-mão – a Humana. É a minha primeira experiência, pelo menos em Portugal. A única vez que havia entrado numa loja do género, no ano de 2002 em Brisbane, lembro ter comprado uns calções verde-seco que me fartei de usar em férias. Porquê a hesitação de referir aqui no blogue as compras de ontem? – uma blusa preta sem mangas de tecido óptimo e em muito bom estado e uma saia estranha para o meu gosto, mas a que achei graça, a três euros cada. Por viver numa sociedade de consumismo desenfreado, cheia de preconceitos e digamos as coisas a direito: uma sociedade estupidinha e fútil. Mesmo sendo racional e percebendo as vantagens financeiras e ambientais destas escolhas, o certo é que há uma estúpida vergonha – espécie de desonra de dar o ar de necessidade e pobreza. O que não faz sentido nenhum. Se hoje não é difícil vestir sem gastar muito dinheiro - o que mais há é lojas normais que vendem roupa barata, alguma com razoável qualidade -, porquê ir à Humana? Porque as peças são ainda mais baratas, podem ter mais qualidade e não se multiplica o consumismo desnecessário comprando sempre mais e novo. Evita-se o desperdício. Um comentário final para dizer que é pena dispôr de pouquíssimas peças masculinas. Andei à procura de uns jeans para o Nuno e não encontrei nada decente. A T. avisou que na loja da Humana na baixa sou capaz de ter mais sorte.


PalácioArrabida


TerraçoPalácioMeditação


VistaTerraço


AcessoPalácioSubidaPalácio


 


Dali seguimos para os terraços da base dos Jardins do Palácio - onde se chega por rampas ora lisas ora rugosas e degraus difíceis que prefiro sempre subir a descer -, com vista para o rio Douro e a Ponte da Arrábida. Quando chegámos dividimos o espaço com um casal e um rapaz só. À medida que o tempo foi passando chegou mais um punhado de gente, entre eles um rapaz que aproveitava a serenidade do espaço para meditar. Estendemo-nos na erva protegidas pela sombra dos ramos de um carvalho e sobre umas pequenas toalhas da Decathon trazidas pela T. lanchámos os croissants e sumos de laranja que levei e continuamos as conversas de uma vida e as novidades que animam e movem os dias de cada uma. Para que a tradição continue a ser o que era quando falávamos de dinheiro uma pomba de rabo alçado em cima no ramo do carvalho borrou-me os dedos da mão. Desanuviando o nojo, rimos: é sorte, é um sinal. Optimismo acima de tudo e mesmo se tudo o contraria é o lema. Já perto das nove da noite ainda dia cada uma apanhou o seu autocarro.