Se soubesse e houvesse oportunidade, sim é provocação, se soubesse e houvesse oportunidade escreveria prosa bonita, acerca de bolsas de verga que duram 30 anos. Há dias uma bloguer mostrou a forma como embelezou uma bolsinha de verga com um galão de franja. Recordei, em boa verdade a etiqueta ainda me impõe sempre lembrar, mas - perdoem-me a família e a educação as modernices na linguagem -, tenho de me fazer à vida que isto de escrever quilómetros sem recurso aos sinónimos seria um desatino de repetições que nem a música minimalista consentiria – recordei, dizia, o primeiro lanche familiar para o qual comprei uma toalha branca que resolvi adornar com um galão azul-escuro. Péssima ideia foi tê-la lavado na máquina. Tingiu, ficou cara a brincadeira e a solução seria descoser o galão para a branquear e voltar a levar à costureira. Está por isso desde então na gaveta no imaculado sossego de nódoa – sai à dona.

Hoje foi um dia especial. Enchi-me de coragem e desfiz-me (isto é, vou desfazer-me) da tal bolsinha de verga que andava há 30 anos nas minhas carteiras, ou malas para quem gosta do género. Nos últimos tempos em franco mau estado. Talvez pela mesma razão continue a usar as sandálias das solas partidas apesar de já ter novas (são mais confortáveis as antigas) e de ao longo dos anos me ter acontecido algumas vezes dar por grandes buracos nas solas dos sapatos ou botas – lembro particularmente de um caso há 24 anos quando trabalhava no primeiro banco e da ficar um nada vexada quando descobri as solas rotas, já que a minha mesa de trabalho ficava virada de frente para muitas outras - foi o meu cartão-de-visita logo no primeiro emprego – pensando melhor era o segundo ou terceiro. Caramba, assim não se causa grande impressão profissional nem se arranja boas relações nem sequer casamento. Uma maçada. Sou tão infeliz. Hoje possivelmente nem ligaria e andaria mais uns dias com as botas, porém à época garanto que se me apercebesse teria de imediato mudado por causa da vergonha. O drama era (e é) mesmo o despiste. Não é que não houvesse cuidado e pudores, porém a distracção sempre superou essas qualidades tão virtuosas.
De maneira que hoje passei o conteúdo da bolsa de verga para uma saquinha de cortiça com fecho-éclair enfeitada com florzitas e a frase born to be authentic, comprada já há alguns meses. Fiz a mudança à frente da minha mãe que ao ler a frase soltou um: não haja dúvida que é sua. A mudança é um marco na minha existência. E mais: vou ter coragem de deitar fora a primeira sem remorsos. Grandes conquistas, grandes passos para a humanidade. Isto sim, são matérias que interessam.
Queria escrever qualquer coisa bonita, mas não saiu. Mesmo. Afinal aquela brincadeira da provocação na primeira frase foi precipitada. Irra, estendo-me sempre ao comprido nas apresentações. E mais: a beleza escapuliu-se dos dedos e fugiu para parte incerta. Ah e tal, não ligues que o belo é inimigo do bom – tanto engano no rótulo. Ah e tal, isto também não vale muito, é mera futilidade – tanto engano no catálogo.
Bem, mais tarde tento outra vez. É que hoje com toda a franqueza tive a sensação de ser capaz de escrever bonito – a coceira que esta expressão dá nos ilustres da praça. Pena não ter conseguido. Uma maçada. Quase sofreria se não me soubesse mais do que capaz de o fazer – descansem que nos próximos posts já perco esta pose pouco usual de imbecil convencida e volto ao acinte de refilona ou ao carinhoso registo de Calimero. Vou sofrer até ao fim, muito e sempre e mais, vou sofrer por ser tão incapaz, só para deixar contentes e impantes os pica-miolos de estrebaria convencidos que grosseria é estímulo. Ups, afinal já retomei neste post o estado normal. O que vale é que é fim-de-semana e este blogue passa de pouquinhos leitores para quase nenhuns. Deve ser falta de "cólidade" porque de feitio as Comezinhas são um doce.