Disseste a um jovem que as angústias tendem a dissipar-se com o passar dos anos e o que hoje parece insolúvel dentro de dez ou vinte anos perde o peso. Saíste do elevador e entraste no centro comercial que conheces dos sonhos – é um luxo a tua vida, até nos sonhos tens centros comerciais a que pouco vais, diga-se. Percorreste os corredores e havia primeiro uma loja de artigos para o lar, estranhos e brilhantes, procuravas talvez um pequeno prato de adorno ou cinzeiro, não sabes bem. Passaste adiante e entraste na porta lateral de outra loja – tinha duas e a do lado de lá era a principal. Viste que o piso tinha desenhado uma espécie de planisfério, mas como se fosse um mapa de estrada aberto no chão. Começaste a andar e logo se aproximou a funcionária da loja – não fazes ideia o que vendia por não teres tirado os olhos do chão. Explicou que só podias andar “nos caminhos”. Ou seja, nas zonas dos oceanos e em rotas marítimas que pareciam estradas desenhadas de alcatrão azul. Ficaste nervosa, porque distraída saías das rotas, calcando as zonas de terra. Começaste a sentir cair o cabelo. A menina elucidou que cada vez que calcasses terra, cairia o teu cabelo. Passaste a mão na cabeça e saiu um tufo, deixando uma entrada grande no lado direito. Pensaste que tinhas que sair dali rápido.
Este foi o sonho de hoje. De vez em quando tens sonhos assim, cinematográficos.