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28/08/2021

Estratégia destrutiva

Acusar quem escreve sobre o dia-a-dia, comportamentos e sentimentos – e quem usa a franqueza – de estar a tratar de menoridades e de fazer perder tempo aos outros. Tomar-se por ilustre e refinado pensador sobre as questões fundamentais da vida sejam elas quais forem: política, economia, arte, literatura, religião, desporto etc, sem perceber a sua própria mesquinhez de espírito e incapacidade de ver o mundo ao espelho. Reparar apenas no rebusque da moldura doirada do espelho sem entender o que o dito reflecte. Não perceber que o essencial da vida pode estar nas pequenas ideias e gestos.


Esta é a atitude de alguns intelectuais – curiosamente, também é o ponto de vista de muitos incultos, que fazem lembrar aqueles que não sabendo latim preferiam que as missas fossem celebradas na língua morta por ser mais bonito. São a base de pirâmide dos aduladores dos arautos da sabedoria.


Se são agressivos, além desta acusação procuram culpar alguns – sobretudo algumas – de buscar protagonismo. Tentando fazer com que se sintam inferiorizadas por alegada ignorância, pretensão e futilidade. E, claro, despropósito.


A regra é o pessimismo e a negritude. Num certo paralelo com a lógica do “um relógio parado está certo duas vezes ao dia”, estas pessoas parecem estar convencidas que é sinal de inteligência e sabedoria ver o lado perverso da realidade, como se acautelassem contra as traições da humanidade e do universo. É pena que, como eternos adolescentes rebeldes, não percebam serem elas próprias elos do universo. Ser lúcido e clarividente não é ser destrutivo e defender a inevitabilidade da ruína do mundo e das relações humanas. Não é entrar em processo de autodestruição sugando para a tormenta quem rodeia – refugiando-se e enaltecendo um paraíso perdido no passado que nunca existiu. Para isso não é precisa grande inteligência: qualquer alcoviteira faz o enredo da vida e qualquer carpideira dá eco ao fim certo de cada ser humano.


Procuram rodear-se de iguais. Gente igualmente convencida da sua superioridade e cultora da agressividade, que condena sumariamente todos os ignorantes da base da pirâmide intelectual. Precisamente os que os sustentam.


No fundo, o que está em causa? A necessidade de amesquinhar e acusar outros de imperfeição, ao mesmo tempo que com grande proa e sofisticação se diz ser contra moralismos – a maior das falsidades. Ao mesmo tempo que se pretende fazer passar a imagem de grande conhecedor da complexa e imperfeita natureza humana.


Moralistas, antes os que se assumem como tal. Nada pior do que amantes da devassidão a perorarem sobre o que devem ou não devem fazer os ignorantes. Se gostam tanto e é tão boa a podridão que fiquem por lá. Estranho é que sejam tão infelizes e cultivem tanto a infelicidade, sua e dos outros.


Para alertar para os perigos do populismo, do fundamentalismo, do relativismo, da corrupção e de toda a sujeira do mundo basta denunciá-los, não é preciso espezinhar os outros nem dar provas de podridão, como ser fosse necessário para ascender ao patamar de ilustre conhecedor da natureza perversa do homem.


Este texto foi escrito na decorrência de vários eventos não relacionados entre si, não se dirige a ninguém, nem pretende ofender ninguém.