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21/08/2021

Criar

É vulgar o desdém pelo discurso reflectivo na primeira pessoa. Cansa, molesta olhos e ouvidos pragmáticos. Invoca-se a necessidade de distinguir o que é – a famigerada realidade que parece luxo só ao alcance de espíritos instruídos, lúcidos e práticos - para além da pequena e egoísta sensibilidade de gente envolta em devaneios estéreis. É mais fácil gostar de histórias com intriga: relação, drama, comédia. O enredo é apelativo e vende. Seduz multidões de curiosos. Se não há encontro e desencontro, desavença, julgamento e ironia, o que sobra? Tédio.


É muito difícil reflectir a humanidade sem pretexto. É mais fácil usar outro. Quantas paixões e amores inventados servem de mero efeito estilístico?


Se tomarmos o regresso à infância, os devaneios amorosos, o mistério do Universo e a clarividência da morte como alguns temas sobre os quais tarde ou cedo nos debruçamos, pergunto-me para quê usar o outro. O outro é isso mesmo: mais um ser humano feito de dúvida, sonhos e desencantos. Não é uma muleta. Criar não é isso com certeza, nem amar.