Depois de uns dias sem conseguir escrever lá vou tentar um postal corridinho, sem recorrer a régua e esquadro nem ao pré-determinado. Vou à bolina. Rege o tempo, o vento, o improviso e o cansaço. É sexta-feira pelo que não é novidade que estou contente. Razões? Ter planos: enquanto houver planos na vida há contentamento. Ontem às quatro e picos da madrugada estava a ler o Marías (céus, como a vida muda: acordar às 3h30, voltar a adormecer às 5h00). Tinha-me estendido no sofá no Jornal da Noite, logo após o jantar, e visto e ouvido o Brigadeiro vice-almirante Gouveia e Melo, tombei. Da entrevista destaco a evidente falta de hábito dos portugueses em verem gente civilizada, inteligente, sóbria e prudente na televisão. Do que disse sublinho o elogio a doutora Graça Freitas - bem o merece após ter sido tão destratada no último ano e meio ao encarar o que poucos enfrentariam nas condições pessoais que detinha. A directora da DGS esteve mal naquela saída infeliz do patriotismo e pontualmente em tiradas que nos fazem lembrar as antigas ciosas administradoras de condomínio recta-pronúncias, mas não era motivo para tanto desdém, que advém de não ser figura sexy. Fosse gira ou novinha e vingariam as loas. O grosso das questiúnculas à sua volta prendeu-se com a necessidade dos jornalistas preencherem os telejornais de hora e meia com as banalidades e frivolidades que entulham a televisão e por conseguinte as conversas dos portugueses. Pareceu-me que o vice-almirante esteve muito bem na discreta tomada de posição quanto à terceira dose, explicando que o argumento de que os anticorpos decaem após três meses da toma não colhe, uma vez que a informação genética fica na memória da células do corpo dos já vacinados (pronta a ser recrutada contra a infecção). Claro que disso não vão querer saber os decisores políticos quando afirmarem que se regem pelas evidências científicas.

Mas voltando a Julián Marías e aos planos. Levo muito tempo a ler. Há dois ou três meses andei à volta dos socráticos, agora estou na Idade Média. Como sempre aconteceu, em vez de me ater ao que leio, projecto organizar as minhas ideias, e isso passa por conseguir reduzir a um pessoal voo de pássaro a História da Filosofia (atrevida). Mais uns meses ou anos e sairá postal - mais um para agenda. O da China está suspenso (assim como o pulo até à Oceânia).
Ontem, ao passar os olhos na História da Filosofia, a ideia que mais me agarrou com alguma surpresa - coro por a ignorância não ter tamanho - é a da importância no século IX da preservação do conhecimento da cultura clássica – grega, nomeadamente – na Irlanda e demais Ilhas Britânicas. Outra surpresa que me fez corar na altura em que tentava escrever o postal sobre a História da China (muito atrevida) é a da extensão do feito de Genghis Khan, o fundador do Império Mongol.
Depois de lido e mal revisto, assino apercebo-me que este é mais um texto para diário.