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08/08/2021

Diário

Acordei pouco depois das nove. E fico a pensar no tempo que levo a não fazer nada e se esse nada que faço não é o que de mais essencial tenho na vida. Senão vejamos, abri a persianas com o Ritz a espreguiçar-se e a seguir-me os passos miando. Até que pus o punhado de granulado da ração na tijela de metal, que a meias com a da água enche a barriga do peixe de plástico branco de suporte.


Catrapisquei as plantas da varanda e a sardinheira devolveu-me a demonstração de afecto com mais um pequeno cacho de flores a abrir – já tinham secado todas e têm vindo a reflorir paulatinamente, como é próprio da natureza. Face a esta entrega da sardinheira, mas também à carência da japoneira que tem várias folhas acastanhadas – começo a achar que as japoneiras não gostam desde encosto – fui buscar o jarro da água para regar. Sim, nesta casa as plantas bebem da mesma água e são servidas pela mesma caneca que os donos – por falar nisso, hei-de voltar a ter jarros de vidro de água bonitos, o facto é que tem havido azares com os bonitos e estes mais toscos vão perdurando.


Entretanto, neste preciso momento, o Ritz entra no + 1, dá umas miadelas e sobe ao braço da cadeira onde estou sentada, para saltar e vir deitar-se na almofada que coloquei do lado direito do portátil. Em dois minutos fico a perceber por que razão o calendário aparece caído. Este compartimento tem sempre pequenas borboletas ou traças – por deixar uma frincha da janela aberta Verão e Inverno e isto dar para o Jardim dos vizinhos – e no afã da caça, gato arranha o calendário pendurado.


Voltando à manhã. Tinha regado as plantas, faltava tomar o pequeno-almoço. Um vaivém cozinha quarto: um iogurte grego e café. As consultas habituais do telemóvel pela manhã: o que foi escrito? E o que diz o Observador? Nada que não tivesse lido na noite anterior. Talvez um artigo de opinião. E começa a saga de Sábado. Arrumar o que está desarrumado na casa, tratar da roupa para a máquina, dar uma varredela, tratar das coisas do gato, dar um arranjo na cozinha, deixar o resto para o Nuno fazer e ir ao ecoponto – na noite anterior tombei no sofá após o jantar de tanto sono e só acordei perto das duas pelo que não libertei a casa do lixo à noite como gosto.


Entretanto é meio-dia, estou com a língua de fora, e volto para segundo chuveiro já abrasada. Recordo a dica que a minha avó me deu em criança: abaixo da nuca, no início da espinha. Água muito quente no Inverno e fria no Verão e todo o corpo se regenera. Impressionante centro nefrálgico, este. E assim foi, bastam uns segundos de água fria abaixo da nuca e um minuto para molhar o resto do corpo e voilá o efeito pretendido: refrescar, tão só.


Enquanto tudo isto decorria, pensava no que escreveria: no caso, do gato andar esta semana muito entretido a implicar com os pequenos bibelots dados pela Eca e pela avó. É incrível: os mini ursinhos de loiça cor-de-rosa e o mini relógio tagarela da Eca e a pequena caixinha de mármore rosa da avó. À noite dei por mim sobressaltada com o restolho, lá andava um Ritz a arrastar pelo chão estes objectos que me são preciosos. Guardei-os e aproveitei para conversar com as duas. Talvez fosse esse objectivo.


À Eca perguntei se estaria bem lá onde está e contei que há 20 anos, enquanto a ia ver ao Lar - aos Domingos e às vezes quartas-feiras -, e ela me dizia que de tanto escolher ficaria sozinha, eu deixava o Nuno amuado por vir passar o fim-de-semana ao Porto e eu o abandonar nas tardes de Domingo. Levantei a camisola para dar duas palmadas na barriga e dizer: está a ver? ferinha. E assim vi o sorriso da Eca. Está bem com certeza e já me deve ter perdoado as ausências nos últimos anos. Custava tanto vê-la entubada, semana após semana, mês pós mês, ano após ano.


À avó disse que isto é muito rebanho para tomar conta e é preciso que não perca os olhos de todos nós. Contei que o país vai de mal a pior. Já estamos na fase da degeneração dos maçons. A governação do país e a televisão estão entregues a gente medíocre e ordinária. Contei que há dois anos, talvez, li uns contos de Maupassant e gostei muito. Disse que já não precisa ficar preocupada com a minha toléria – nunca fiando, mas o tempo é de esperança. A vida lá encarreirou com emprego duradouro e o juízo voltou. A falta de religião é o que é, avó. Mas mesmo sendo esta neta uma herege, pode sempre desenhar-me a cruz na testa com o polegar, que fico mais aconchegada. E podemos fazer festinhas na mão e contar as flores do cíclame que nasceram esta semana.


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Almoçámos bacalhau espiritual do Continente – já foi menos mau. E comemos melão delicioso - faltou o talher de melão de Valinhas.


 


 


De tarde, a mãe e o Nuno estiveram nas leituras sobre ciência. E eu fiquei-me pela filosofia medieval. Das tentativas de harmonização da filosofia aristotélica com os fundamentos religiosos, registei nas gavetas de memória o Guia para os Perplexos, de Maimónides (haverá aqui um laivo de Heráclito? – posso estar a simplificar). A investigar mais tarde. As complexas teias de aranha cristãs não me seduzem e as singelezas islâmicas não me convencem, ao contrário da parcimónia de Guilherme de Ockham.


Ao fim da tarde foi tempo de café com pai. Entre boa disposição e conversa anómala sobre bichos.


Jantámos arroz de pato. Melão, café. Não me lembro de ter a televisão ligada, mas sei que esteve. Varreu-se-me tudo quanto tenham dito. Não sei de nada, nem quero saber. Amanhã confirmarei que o mundo continua em pé, apesar do Ritz me ter entrado aqui mais uma vez – há 3 minutos - e atirado outra caixinha da avó ao chão: espalhando missangas e búzios que devo ter apanhado numa praia qualquer há muitos anos: não faço a menor ideia qual nem quando.


Com isto, são quase três na manhã e vou dormir, que bem preciso.


(mais tarde coloco a foto do melão.)