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21/08/2021

Sair de mim

De tanto vaguear no lado de fora, aprisionei-me dentro de mim. Podia jogar com as palavras, intervalando o sujeito entre eu, tu e ela, fazendo de conta que mais alguém havia. Mas neste caso não: sou só eu e a minha solidão só. De tanto bater as asas, viciei-me na liberdade.


Perdi o sabor do vento, como um fumador vai perdendo o gosto aos primeiros cigarros. Lembro-me em novita de parar alguns dias de fumar, só para que o cigarro me voltasse a saber ao primeiro. Aquela espécie de violência no palato que depois de travada, abre os pulmões.


Assim é a liberdade. Se viciada, acaba por não sentir o movimento. Precisa que lho contem: não por vaidade e longe de ser virtude, saber que ainda sou livre no que já não sinto é tão só ser quem sou.


Perguntei ao bom senso como poderia sair de mim. Disse-me que seria pela vontade: como acordas à mesma hora, tomas banho todos os dias, escovas os dentes. Pois, disciplina, respondi. Como te habituaste a dormir comigo, foi assim mesmo que mo disse.


Partimos depois para o concreto. Talvez ler mais o que é de ler: livros em vez de opiniões. Séries, filmes. E pensei eu: voltar a ver e ouvir saindo de mim.  Voltar a sentir.