Ai a minha vida. Emaranho-me em problemas graves com muita facilidade. Agora é este: não sei por onde começar o texto. O drama, a tragédia. Podia iniciar pela letra da música que acabei de ouvir na smooth fm mas gostei tanto que já esqueci: qualquer coisa, sou da sanzala, sou da mistura. Soa-me muito bem para começo de conversa. Antes outra em inglês acusava uma ela de não compreender o amor. É, elas são tramadas. Umas malvadas e eles coitados, uns indefesos de sentimentos muito puros. Também podia ir por aí. Ou então dizer que já servi o whisky há quase meia hora e ainda não o comecei a beber. As duas pedras de gelo já devem ter derretido. Vou esticar o braço para trás, pegar o copo, olhar, dar um gole e pousá-lo no chão. Digam-me lá como sobreviviam sem estas informações relevantes sobre o rolar deste universo narcísico? É, já dissolveu e ainda assim está intenso, este JB 15 anos. Dois dedos costumam durar a noite toda, como há 25 anos durava a vodka limão. Preferia Vinho do Porto, mas acabou na semana passada. Já mandamos vir mais para as nossas noites de fim-de-semana.
Ora vejamos o que vai ser isto? Um diário, então vou ali ao cimo da página pôr o título: diário. Mas hoje vai ser comprido. Ó se vai. Isto se me acorrerem os tópicos acerca dos quais digo as patacoadas habituais com que me divirto comigo própria em primeira linha e com outros se acaso aparecerem. Estranho, há quem veja aqui mais tristeza do que alegria. É o que dá não compreender as coisas simples da vida, nem ser capaz - de tanto procurar sentidos profundos para a vida - de sentir felicidade no comezinho.
Se começar pela manhã posso contar quão fonas sou. Ontem reparei que em cima do estafermo – único móvel que trouxe de Valinhas e que é o meu reduto de gavetas da memória do paraíso – estava um frasco vazio de sabonete líquido dos que costumo ter nos lavatórios. Vazio não, quase. E essa é a questão. Odeio deitar fora frascos, tubos e tudo mais ainda por escorripichar. Peguei nele e despejei o máximo possível no que estava a uso no lavatório e levei o resto para o chuveiro. Como faço com os restos de champô, juntei água. Usei-o em substituição do gel de banho. Diz o Nuno: assim ainda enriquecemos. Devagarinho, mas enriquecemos. Ele goza porque é o dissipador do património da família. Bem sabe que quando resolve que é hora de deitar fora o tubo de pasta de dentes dele, o passo para mim aproveitando-o mais duas semanas. Ora, já conto dez linhas acerca de sabonete líquido e pasta dos dentes e digam-me lá se não sou boa candidata ao Pulitzer? Pena que tenha de confirmar na Wikipédia como se escreve o nome do prémio – mas esse será o próximo passo: atribuir prémios literários, musicais e que tais a quem não sabe escrever nem compor. Modéstia à parte considero-me muito bem colocada. Diria mesmo na pole position. E ainda há quem ria disto e me imagine uma tresloucada sonhadora daquelas que o cinema intelectual-chato-comercial desenha tontinhas e imbecis, perfeitamente deslocadas da realidade até encontrarem seres iluminados que as encaminham rumo ao estrelato segundo passos sólidos e sensatos. Êh. Como dizer? O sujeito do desfasamento da realidade destas historietas está mal identificado. Apontaria mais para o alheamento do argumentista e menos para o da personagem.
Mais a registar no dia? Ah, ainda não contei tudo de ontem. Bem sei que se preocupam comigo e gostam de fazer como os mais-do-que-tudo zelosos, perguntando à chegada a casa: como te correu o dia? Ontem, mal. Parte do dia e não só pelas razões apontadas no anterior diário, mas também por receber a conta da EDP. Fiquei de trombas por uns bons momentos, pois claro. Essas coisas indispõem muito. Ainda que acrescida apenas este mês com os encargos com o acesso à rede – é tudo a somar – pelo consumo aumentou muito. Mais um tombo. E se há coisa que sei bem é como é duro o mês de Janeiro em matéria financeira. Resumindo. Desliguei de imediato o segundo aquecedor a óleo e guardei-o no +1 debaixo da secretária para não me tentar novamente. Curiosamente à noite apanhei o Ritz, condicionado como os cães de Pavlov, deitado em frente ao aquecedor desligado. Por ter passado no último mês muitas horas na cadeira do canto da sala junto ao dito – fiz-lhe ninho lá, com uma mantinha e era o sítio onde mais horas passava nos últimos tempos.
Por falar em bichos na noite passada tive um sonho extraordinariamente simbólico. Andava a passarinhar pela marginal ribeirinha lisboeta com os meus e pousou-me um passarinho verde no ombro. Como é costume sempre que tenho sonhos simbólicos passo do cenário inicial para Valinhas. Neste caso o cuidado com o pássaro verde, que era muito meigo e dava-me bicadinhas na cara e orelha, transferiu-se para uma cadela que andava por Valinhas e não estava bem de saúde. Ao acordar vi o significado de pássaro verde no ombro e é bom. O da cadela doente imagino que nem por isso. Amanhã estudo melhor as bruxarias. Para já compreendi durante o dia que esta coisa das bruxarias pega-se. Como direi? Além de preconizar palavras e ideias usadas por outros no dia seguinte, estou numa daquelas fases de me acontecerem coisas como esta: a M.R. na empresa perde o telefone, pede-me que lhe ligue para o ouvir e penso do nada que está na gaveta da secretária, ligo e lá vejo o telefone a tocar dentro da gaveta. É este tipo de antecipações multiplicado por inúmeros momentos durante o dia. São dias como o de hoje que fazem fases de quando a quando. Nas quais penso brincando comigo mesma: toma as gotas, rapariga e é melhor não falares muito do assunto. Logo voltas ao normal. Se ainda fosse um dom que pudesse usar, mas não tenho domínio sobre ele. É fortuito. Impossível de domar. E acerca disto muito poderia dizer, talvez escrever vários livros, se soubesse escrever e criar enredo e libertar personagens e toda essa tralha. Mas vou continuar a produzir textos para as Comezinhas. Isso me pede a intuição. Ou será a preguiça? Digamos que é uma preguiça muito trabalhosa, quase disciplinada e quase sempre prazerosa à moda dos brasileiros. Mas caramba, devia ser à moda angolana. Como direi, então? Tamos juntos?
Mais a registar do dia? Trabalhei, mas isso não é relevante para efeito de Comezinhas. Os intervalos são o que as preenchem. A T. mandou mensagem e amanhã tomaremos um cafezito para pôr a conversa em dia. Liguei a dar os parabéns à S., que faz hoje cinquenta anos e estava radiante a passar o fim-de-semana na Galiza. Partilhou comigo as razões da felicidade e deixou-me muito contente por vê-la assim. As pessoas que vibram com os momentos bons, as pessoas que não fazem caixinha da felicidade, devem ter direito a bónus de alegria. Falou-me em chegar aos cem anos. Faço votos para daqui a cinquenta anos estarmos as duas a rir de lá termos chegado. O meu irmão F. - creio está em Madrid -, mandou-me por WhatsApp uma fotografia minha com que ficou para corrigir defeito nos dentes – um conselho: não comam linguine preto com gambas antes de tirarem fotografias. Primeiro fez-me desaparecer de todo da imagem e escreveu: corrigi o erro. Depois pôs-me a andar sobre as águas de Esposende como Jesus. Esse milagre conseguiu, só ainda não consegui perceber se tirou o resto de linguine dos dentes. Mais logo vejo.
Agora começa a estar quase tudo. Falta talvez recordar que sexta-feira é dia de ecoponto. Mas ontem antecipei-me e fomos libertar a casa do lixo e demais resíduos. Já sabem como me sinto bem quando acabo essa tarefa. Aproveitamos para dar a volta ao quarteirão e descer um pouco a Constituição só para nos obrigarmos a subir e assim fazer a digestão do jantar. Por falar em digestão, à vinda recolhi as cartas da caixa de correio e não gostei nada: duas cartas da ARS a avisar que, quais maninhos siameses, devemos fazer o rasteio do cancro do cólon e reto recomendado pela faixa etária. Deve ser melhor terminar por aqui. Afinal daqui em diante este texto teria tendência a descambar. Bom, terei de ver pelo lado positivo, se resolverem fazer averiguações mais minuciosas sempre poderei tomar aquela droga que dão na anestesia local da colonoscopia que nos faz sentir felizes. Espero me calhe a droguinha certa. E assim termina este diário.