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13/01/2024

O ano 2023 revisitado

Aqui ficam as ligações para um punhado de postais do segundo trimestre de 2023 com excertos.






 


Abril 



À sorte. Abrir uma página de word em branco e escrever à sorte. Esquecer aquele post que estava na calha sobre o livro da alemã e as resenhas sobre as grandes obras literárias em matéria de amor e política e partir para o desconhecido, se bem que ele já está contaminado por tudo quanto vou absorvendo nos últimos dias. Mas interessa aquela sensação boa da lata de pôr os dedos nas teclas sem para elas olhar, tal como não olhar à intenção e ao diabo a quatro. [...] É assim a memória: não dá para fixar em definitivo a gramática por mais vezes a consulte, mas dá para associar a leitura às tardes em cima das colchas. E ao vento do terreiro alto rodeado de tílias a bater nas cortinas brancas que não deixavam ver para dentro de dia, mas permitiam ver para fora e que a luz entrasse. Gosto da ideia de poder ver sem ser vista, gosto de cortinas, mais do que dos estores interiores mais modernos. Tiram luz e não permitem regular a luminosidade nem o equilíbrio da discrição. Da moderação. E aprecio a leveza do tecido fino em contraste com os materiais espessos dos estores. Há crueza neles, há barreira, ofendem o brilho, toldam a luz. As cortinas finas brancas, de fios ralos e por isso um tanto translúcidas tratam bem a claridade, permitem que exista e penetre nos espaços interiores, são delicadas e acolhedoras. Os estores serão regulares engenhocas de domínio sobre a luz. As cortinas leves têm o talento de respeitar a Natureza, ajustando com delicadeza as carências de todos: do Universo que quer clarear, de quem quer ver e da relação mediada entre os dois. [...] Embrulhei-me toda na tosse imaginária do travar desse cigarro lá longínquo, daqui a 33 anos, e senti há instantes o odor da fumarola. Não me agradou muito, tem piada. Pronto, na altura terei de escolher um cigarro fraquinho e se houver, daqueles com bolinha de menta.  O que posso fazer em 33 anos? Há qualquer coisa que dói, e que passou. E se esvaiu. Vida. Não que a quisesse especialmente de outro modo, não que haja especiais arrependimentos. O remorso maior é da Natureza: o tempo. Não o que não volta, porque não queria voltar a nenhum tempo passado em especial. Regredir a algum momento feliz? Para quê, se o trago em mim. Foi. Rever quem já cá não está? Para quê? Se os trago comigo sempre. São. Conquistar o que não conquistei? Que mais faço eu no presente senão todos os dias conquistar? Não é o tempo que não volta que me falta, é o que passou e não posso multiplicar, é o que se esvai face ao tamanho dos desejos futuros, sempre crentes e, céus, tantas vezes totalmente desajustados, tontos e impossíveis. Mas são os meus desejos e ninguém mos tira. Ou melhor, só o tempo os restringe, pressiona, comprime. E a jovialidade contraria, desatina e ri do tempo. Faz o braço de ferro com ele, no canto da grande mesa de jantar de Valinhas, como o avô ensinou. O braço de ferro a ver quem é mais forte. Só o tempo fica mais forte à medida que envelhece, invencível na hora fatal. Mas até lá, ganho eu. Irei engasgar-me aos 82 ao acender o cigarro para mais um braço de ferro. E para mais não me chegam os próximos 33, quero 42 que também dá seis reduzido à base e por isso a palavra é felicidade. Pronto, decidi agora que deixarei o tempo torcer-me o braço aos 91, que dá um e por isso a palavra é amor. E agora vou pôr um ponto final nesta tolice e deixo para outro dia contar esta história dos números terem correspondência com letras e palavras: aprendi em criança na escola, não na sala de aulas de onde conservei sempre muito pouco, mas fora dela. Coisas de rapariga.  



Venha mais um caso à apreciação deste colectivo de juízes que é cada um de nós. Ah, e tal e coisa, não devemos julgar os outros. Ah, a verdade é relativa. Ah, todos temos imperfeições. Ah, a pluralidade de opinião é fundamental. Quanto mais o afirmam, mais julgam dissimuladamente, mais tecem e manobram na sombra a teia dos interesses e privilégios próprios ou de poucos, fazendo passar este jogo sórdido por defesa da democracia. Na aparência da tolerância criam uma sociedade desdenhosa. Incentivam sub-repticiamente os ódios latentes na sociedade, as invejas, os ressentimentos. Escarafuncham-nos para provocar mais dor e fazerem-se notar por contraste, para realçar a sua suposta superioridade moral e intelectual. Na aparência da tolerância, acicatam a violência: fazem de conta que combatem o ódio apenas na busca de maiores audiências ou do voto supostamente moderado. É a arte da farsa. A vitória da esperteza e do oportunismo alçados a sofisticação e do argumento a valor supremo de tolerância. A imposição do respeito por espertos demagogos de retórica fácil que aproveitam a apatia e silêncio de muitos para cativar os excitáveis e sempre mais interventivos e barulhentos. A vitória da ruidosa maioria das controvérsias, das questiúnculas, das causas rentáveis, da manipulação e culto da indignação sobre a discrição do bom senso e da busca do melhor para todos. A vitória dos interesses de alguns em prejuízo do todo, nunca abdicando de interesses próprios em benefício do bem maior. Desde a base ao topo de pirâmide da sociedade disseminou-se a farsa da esperteza e do oportunismo. É a derrota da inteligência e da sensibilidade, sempre desdenhada e descartada por não vender nem inflamar.  


 


Maio



Ontem disseram-te que depois da ausência condensaste uma vida em pouco tempo e desataste a falar. Talvez seja verdade. Acrescentaram que reuniste os erros todos, que diluídos numa vida não seriam relevantes e desta forma tomam maior proporção. Não é que os erros se refiram exclusivamente aos outros ou a factores externos, conheces bem muitos dos teus e sabes que fizeste cavaladas que chegassem, mas ao dizerem-te isto associaste outra imagem ouvida há uns dias. Aquela de quem estando há muito com um pé bastante ferido, é calcado e tem uma reacção exagerada com quem o pisa. Talvez seja isso. Foi uma vida de calcadelas, não só sobre ti como sobre outros. Não gostas de dar imagem da perfeitinha e moralista sempre acusadora das vilezas alheias, até por compreenderes quantas vezes esse papel é desempenhado por gente que, pese embora toda a retórica muito íntegra e preocupada com o bem alheio, tudo quanto almeja é oportunidade e talento para também calcar. Mas é facto: desde criança sempre te revolveu o estômago a injustiça. Não costumas usar este termo por orgulho, por achares que é dar parte de fraca admitires que a injustiça existe e és vítima dela. O gozo leviano com a imagem de Calimero leva muito boa gente a tolerar o intolerável por orgulho. A forma como a desonestidade e a vileza se impõem no mundo e a impunidade da pulhice enojam-te. A glória da bazófia enoja-te. Talvez sejas susceptível, até precipitada nalgumas avaliações. Todavia os sinais exteriores de pulhice dizem muito. Os sinais da arrogância, da mentira, da presunção, da ganância e da desonestidade magoam-te o pé ferido desde que és dez réis de gente. Por ti e pelos outros. Talvez por isso te diminuas, como te acusam sem compreender que o fazes para denunciar este lodo de mundo em que cada um vinga ampliando-se à custa dos outros. Sim, houve muitos momentos em que tiveste vergonha do teu privilégio, por ridículo possa parecer a tantos que não te vêem com regalias de espécie alguma: salvo quem tem pouco ou sensibilidade especial vêem-te pouca coisa, pouco capaz, pouco merecedora de crédito e confiança para o importante e tu vês-te com riquezas materiais e morais imensas num todo não dito ou exibido para não ofender e evidenciar. Vives nessa dissonância quixotesca. Desde criança sentes-te privilegiada e sempre achaste que tudo quanto possuis e não é teu por mérito deveria estar ao alcance de todos. Serias mais feliz se o teu mundo, aquele que sempre viste desprezar por indiferença ou sobranceria mas sabes rico, fosse acessível a muitos que não gozaram das mesmas graças. É o que tens para dar, passe o narcisismo e a vaidade.



Passa amiúde pela minha cabeça o tema greve: deambulo entre o facto de nenhuma conquista de direitos laborais ter sido conseguida sem reivindicação e luta e a constatação de que são os grupos profissionais privilegiados (em regra, da função pública ou de empresas estratégicas) que mais recorrerem à greve usando e abusando da chantagem, sendo de perguntar se essas lutas trazem benefício efectivo aos trabalhadores mais penalizados ou explorados, ou se pelo contrário, estes acabam penalizados duplamente: com piores condições laborais e a pagar através dos impostos as regalias dos muitos reivindicadores profissionais.


Hoje tive a oportunidade de constatar o espanto e repúdio veemente que causou uma afirmação normal de um vereador do PAN quanto a famílias numerosas: recordou que somos demais e o mundo não está pelos ajustes. Será possível dizer isto sem associar a declaração à tirania de regimes totalitários? Sem ser considerado extraterrestre ou violento agressor da liberdade de escolha? Há muito que ando para fazer um postal sobre o número e crescimento expectável da população mundial (já fiz uma entrada, mas apenas citando números e conclusões das Nações Unidas, não opinando) e a forma tonta como se continua a falar da tragédia do envelhecimento da população. Só adianto o seguinte: pensar nos prejuízos e dificuldades imediatos (até 20 ou 30 anos) pouco nos diz dos equilíbrios alcançados a prazo mais longo.



Volta a cansativa ladainha, mas é necessário: o pensamento dominante expresso publicamente (tantas vezes dissonante do íntimo) dos políticos, comentadores e de toda a intelectualidade fajuta dos jornais e das redes sociais vips, que acaba sempre disseminado entre a população, favorece e beneficia a irresponsabilidade. É perniciosa a defesa de um Estado que sempre vai em socorro de quem vive do risco e de modo mais aventureiro ou mesmo inconsequente. 


Em mais nova considerava este tipo de pensamento mesquinho. Mudei de ideias. (Estarei farisaica?) O Estado para ser levado a sério deve respeitar os cidadãos mais responsáveis e deixar de fomentar vidas acima das possibilidades. Estou consciente da repulsa que estas afirmações provocam e da acusação desta conversa supostamente invejosa convidar a cisões e conflitos. É com esta moleza tonta que muitos contam para viver sempre no regaço da protecção do Estado. Não é a verdadeira coragem e rasgo que vinga. Muitos sentem-se arrojados, lutadores ou mesmo empreendedores sabendo que, mais tarde ou mais cedo, outros mais prudentes, os lorpas, irão pagar a factura do arrojo. É certo e sabido.   


Noutro plano, a caridade é todo um mundo. Pesem embora as boas-intenções que reconheço em muitos dos que trabalham na indústria da caridade, não deixa de ser isso mesmo: um conjunto de empresas (associações) que movimentam capital e dão emprego ou ocupação a muitos. Quanto mais desenvolvida for esta indústria pior a saúde económica do Estado que a sustenta.


Os que mais promovem o Chega são os das fáceis declarações humorístico-bombásticas sobre os perigos do populismo e do radicalismo da extrema-direita, os que se negam a esvaziar o discurso demagogo, valorizando e trazendo para o espaço moderado as razões atendíveis, justas e silenciosas de contestação. Desculpem o tom maçador e pretensioso, mas ando há anos a dizer isto.



Os liberais deixam-me sempre numa posição desconfortável – quase tudo me deixa assim, mas simplifico. Compreendo a estrutura de pensamento, é-me aliás a mais próxima maneira de estar na vida. Sucede que desde muito nova os comportamentos me causaram alguns anticorpos. Falando especificamente de uma das ideias gratas a essa área política, adiro em abstracto às noções de meritocracia e fomento à emancipação do homem. É-me fácil dizer que cada um deve ter aquilo que merece e para o que trabalhou e que o esforço deve ser premiado. Fui educada e cresci nesta mentalidade: cada um deve esforçar-se por ser independente e feliz. Pronto, percebeu-se a ideia. Sucede que desde cedo também verifiquei que o grau de compensação pelo trabalho, competência e seriedade investidos está longe de ser justo. E o enviesamento da lógica da meritocracia que decorre sobretudo da desonestidade como se está na vida é patente no nosso país. Vejo que a tal defesa da ausência de privilégios e a contestação de políticas que visem igualar os desiguais é uma treta num país onde a falta de seriedade é rainha – tal como nas teses contrárias do igualitarismo, diga-se. Resumindo, tal como ontem concluí que existem os reivindicadores profissionais, normalmente promovidos pelos sindicatos de esquerda, que vivem à custa do Estado, hoje concluo pela fórmula ingénua-oportunista dos liberais. É fácil defender a meritocracia quando se tem a faca e o queijo na mão.


Ou seja, volto à tecla de sempre: a questão não está entre liberalismo e socialismo ou direita e esquerda, mas na seriedade e na necessidade de cumprimento da lei. Que lei ou leis seria(m) essa(s)? São outros quinhentos. Adianto que há necessidade imperiosa a bem da sanidade mental que sejam reduzíveis a um núcleo indiscutível ou inquestionável. Porque o mais grave drama dos nossos dias é a nociva e interminável discussão ou polémica (ah, a veneração dos polemistas da treta) sobre tudo e mais alguma coisa, passando a ser impossível governar ou administrar uma empresa, um país, o mundo. Como chegar a uma base consensual que permita a defesa por todos do efectivo respeito pela lei devia ser uma preocupação de quem pensa no país, em vez de tratar de questiúnculas de nomes, cargos, estratégias de marketing político e intriga palaciana e todas essas matérias que ocupam o espírito de quem faz política em Portugal, desde os políticos propriamente ditos, aos que estão nos jornais e comunicação e redes sociais a tecer todos os cordelinhos dos jogos de poder (e a polemizar: a dividir para reinar). Voltando ao que importa: em Portugal não se cumpre a lei e a regra por sistema, o normal é o incumprimento e a correspondente impunidade. Aos que gostam muito de fazer humor com a imagem das coboiadas e dos justiceiros, não se riam tanto e percam um pouco mais de tempo a raciocinar sem recorrer às gavetinhas arrumadinhas do visto e revisto na História e no cinema e pensem um pouco mais na perspectiva da vida corrente presente, não vos fará mal.


E agora regressando à pátria e às tais questões prosaicas de nomes e intriga que me cansam bastante. Para quem souber ler nas entrelinhas ouve-se de novo o ainda tímido clamor do séquito de Passos Coelho. Tudo farão para que volte. Não faço ideia se o próprio possui condições para voltar. Tenho relativa admiração pelo ex-Primeiro Ministro (mas duvido que votasse nele). E como já admiti aprecio Cavaco Silva. Mas uma coisa é certa no meu espírito: o sebastianismo nasceu e ficou-se na adolescência. Não tenho idade para mistificar heróis.



Na busca do razoável pondero a possibilidade de cada vez que fico danada com qualquer situação de se tratar de reacção contra uma das inevitabilidades da condição humana e do universo físico ou de efectiva e legítima razão de queixa com possibilidade de mudança pela denúncia, com possibilidade de correcção. Afinal é disso que tem sido feita a evolução (histórica) da humanidade, com avanços e retrocessos.


Num tempo de luta entre agressores que vestem o traje de inocentes conservadores e progressistas puritanos, entre cínicos e excitados das causas identitárias é bom conseguir um reduto de sensatez que permita a convivência civilizada. Afinal se é certo o perigo do fundamentalismo e da censura e se não desconheces que o progresso na história da humanidade não é linear, também não ignoras que várias conquistas civilizacionais decorreram de tempos de excesso de retórica e violência. O progresso é manifestação e decorre dos ajustes necessários por mais catalogado de estúpido seja por quem se assusta com as tempestades sociais e culturais dos tempos de mudança veloz. Tempos de querela.


A querela vende e por isso rende ou perdura. É alimentada pela comunicação e redes sociais. Haverá sempre quem se excite com a possibilidade de orientar e doutrinar os outros em função das suas obsessões e paranóias puritanas seja em matéria, por exemplo, de políticas de saúde pública (tantas vezes alimentadas por interesses económicos), de gostos gastronómicos, culturais ou de preferências de orientação sexual. Não chega ser livre ou ver os seus direitos individuais garantidos. É preciso condenar os outros a vidas que espelhem a orientação dominante dos doutrinadores. Quem não adere, estrebucha, manifestando-se com igual intransigência na defesa de valores sagrados ou tradicionalistas. Às causas do ressentimento e voluntarismo idiotas dos progressistas e à sua busca de autoridade moral e poder fáctico opõe-se a reacção indignada dos valores adquiridos e instalados que conferem segurança, estatuto e poder retrógrado e hierarquizado por moral arbitrária. Todos os dias há tema de polémica. Numa época em que a escolarização já foi democratizada e há acesso generalizado à informação, num tempo em todos têm opinião - gostam e pior ou melhor sabem argumentar, tendo a maioria muitas certezas e vontade de as expressar, mas nunca dúvidas -, quem explora os jornais, televisões e redes sociais esfrega as mãos: tudo isto vende. A opinião obtusa, ao contrário da lógica, é produto com muita procura. O mercado da querela moral e da combatividade é fulgurante. Tem muita audiência. Vale a lei da força de quem fala mais alto, de quem é mais visível, de quem mais manipula. Como interessa a intensidade e provocar comoção, salta-se de indignação em indignação sem parar para avaliar as contradições e ilações que daí se podem retirar. Sem criar o distanciamento suficiente para ver o panorama, afundando no lodaçal da discussão infrutífera. Debate improdutivo para nós meros peões, mas muito lucrativo para quem explora as entidades e plataformas onde este debate de desenrola e, claro, para todos os artistas de palco que usam a retórica e os floretes de oratória para daí obter protagonismo e com ele ganho reputacional e acesso ao poder. É o pretenso mundo das ideias e opiniões sujeito às leis do mercado e dos joguetes de poder com a chancela de Democracia.







Esta manhã andarilhei como de costume ao vir trabalhar. Ao passar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima vi estar aberta – reparo sempre haver um dia da semana em que a porta está aberta, mas nunca fixei qual o dia. Será sempre às sextas? Não sei. O certo é que entrei e lá estive talvez três ou quatro minutos. Tentei rezar as três únicas orações que consegui fixar na vida – foi uma ateia que me deu catequese em criança e sempre tive péssima memória, pelo que está explicado -, ainda assim saíram todas baralhadas. Menos baralhadas foram as negociatas desonestas que fiz com Jesus Cristo e Nossa Senhora – os meus olhos ainda demoraram a encontrá-la, apesar de estar bem visível. Também chamei Deus à negociata olhando para a abóbada – tudo muito visual e previsível, sou básica nestas e na maioria das coisas. Basicamente pedi que me desenrascassem dos nós que dou à vida e a vida a mim. Embaralho-me toda. Em suma, pedi o melhor dos mundos. A solução perfeita. E ai deles que não tratem de me ajudar - este desaforo é mentiroso, sou muito mais bolinha baixo do que se possa pensar, que isto é gente para me fazer passar as passas do Algarve, e tenho-lhes muito respeitinho. Já não entrava numa Igreja há muito. De vez em quando lá me dá para o fazer em memória dos tempos antigos, ou para agradecer qualquer coisa. Ou para pedir (a isto chamo negociata desonesta). Da última vez não fui atendida nem de perto nem de longe. Levei uma banhada de todo o tamanho. Só me fazem desfeitas, é o que é. Mas não consigo ficar zangada. Talvez por ter sido educada a respeitar e aceitar as contrariedades. A verdade é que apesar de me ter declarado ateia cerca de 20 anos - entre os 12 ou 13 e os 33 - nunca cortei os laços com esta gente insensível que tem manias e falsos rigores que nunca hei-de entender. Ainda não percebi onde é que os enfio no sentido último do Universo, mas ao que parece têm alguma ligação. São a minha forma mais familiar ou mais antiga de chegar ao dito sentido da vida. Era suposto dizer que me dão conforto, mas não seria verdade. Há inquietude. Invoco-os muito em pensamento, nomeadamente, em momentos de aflição, não sei se por tique se por real convicção. Enfim, sinto-me sempre uma batoteira.


Junho



O facto é que saboreaste duas horas de varanda ao som da smooth fm a escapulir-se do rádio de mesinha de cabeceira lá dentro no quarto, bebericando café enquanto a Lua ia surgindo acima do prédio à esquerda, e saboreando um copo whisky à medida que a aragem morna ia arrefecendo de modo a resfriar a pele da nuca e costas, sempre os pontos mais sensíveis, até ao momento das nuvens engolirem-na, fazendo revelar-se apenas por interposta entidade celestial.


Fotografaste e agora contas. Como se isso diminuísse o momento. Como se não fosse verdade a sensação de regresso às noites cálidas de Lua Cheia nas varandas de Sesimbra, de retorno às noites em paz iluminada de Valinhas. Como se não tivesses gozado o momento do tom de voz baixo, se não saboreasses os pequenos ruídos e movimentos circundantes: o cão, o gato, a pedra de gelo a estalar no copo de whisky, os mexericos caseiros dos vizinhos, o motor ligado do carro parado, a lavandaria do rés-do-chão. Como se estivesses impedida de sentir e observar com os tímpanos, as íris e as narinas o que te cerca, só porque o vais descrever em seguida, sem muita consciência disso. Como se não fosse real e veloz o movimento ascendente da Lua que dobrou o terraço cimeiro do prédio em menos de dois minutos. A terra mexe-se rápido gente, muito rápido. Vê-se a olho nu. Será que te deves segurar à mesa do computador? Estarás segura?


Fotografaste lá fora e agora contas cá dentro. Nada à tua volta é elegante e próspero. A varanda e as paredes do prédio estão sem tinta. O prédio é antigo e desnivelado. As traseiras dos edifícios circundantes não preenchem as quotas dos conceitos e paradigmas da arquitectura. Pejadas de marquises que os portugueses pelintras e ex-pelintras, mas sempre deseducados passaram a escarnecer, desde que aprenderam serem pirosas. Instruíram-se com outros portugueses pelintras e ex-pelintras, mas sempre deseducados e em permanentes bicos dos pés e nunca menos do que cheios de si. As plantas não são fulgurantes nem espigam de vasos pomposos. São apenas árvores jovens e sem peneiras em vasos de plástico: uma nespereira e uma japoneira. O pequeno estendal é uma vergonha. Rabujaste quando te deram tal apetrecho. Jamais usarias uma coisa daquelas; varanda não é para esse efeito. “Só é que” ao fim de ano no armário puseste-o a uso por dar jeito todos os fins-de-semana para secar o fato de banho, a touca e a toalha da piscina. O que é importante impõe-se sempre ao artifício.


Nada reluziu por aqui, tirando a Lua que teimou em cintilar antes de ser engolida pelas nuvens e avisar que ia começando a ser hora de recolher cadeiras e vir para dentro porque os resfriados à luz do luar acontecem e a garganta ressente-se.



A noite passada sonhaste com traição em ambiente juvenil. Eras a traidora e tudo se conta em poucas linhas: um rapazinho, adolescente como tu, aproximou-se e sentiste-te envolvida e tocada – não vale a pena soltarem a imaginação porque a coisa foi bem inocente -, sentiste remorso porque vias bem a cara e expressão de outro rapazinho, teu namorado, que não só fez figuras tristes como te induziu no ridículo para te perdoar.


O teu sentimento no sonho era um misto de remorso ou peso de consciência (tão desusado) e irritação por te prestares a figuras ridículas. Absténs-te de descrever o cenário, mas conheces a simbologia associada. A psicanálise muito debitaria acerca do sonho, sobretudo, se te esmerasses a intensificar, intelectualizar e densificar o enredo e a enriquecer a cena. Nunca para aí estiveste virada, não tens a menor pachorra para complicações e até nos sonhos és linear – não tens paciência para a psicanálise nestes tempos em que floresce o negócio da terapia. Tudo rende análise, teses para chegar a conclusões pré-definidas. Litros de tinta ou metros de pixéis de sabedoria e acesa competição entre portadores de conhecimento profundo e estruturado sobre o que sentem e pensam os outros.


A ti chegam explicações singelas. Ontem à noite viste imagens das arábias. De beleza incontestável. [...] O sonho trouxe-te os motivos. Reflectes: passamos a primeira metade da vida a tentar dar o ar de mais entendidos do que somos e a segunda a desejar o regresso à inocência perdida. O teu passado juvenil não tem histórias de traição a revelar. Mas alguns dias do teu presente estão envoltos em desânimo provocado por realistas debilidades, dores e vulgaridades - esses pós soezes que sempre pairam no dia-a-dia de gente que respira. Essa realidade custosa faz-te evocar a pureza perdida como guia de confiança. Toda a imagem do sonho é de beleza expressa na alegria jovial e terna dos rapazes e estragada pela traição e remorso. E talvez recuperada pelo perdão. Não te importas de ficar com o papel de vilã. Nem de inverter as mais banais circunstâncias da vida. Não interessa a verdade do acontecido e das vidas que existiram de facto. Interessa questionar se a traição, a mera ideia de trair ou a perspectiva de vir a trair não são apenas uma escolha entre duas formas de enganar. A quem escolhes trair na vida? As balelas da psicologia e do esoterismo aconselhariam não te traíres a ti própria, como se isso resolvesse alguma coisa, como se não fossem o acaso e o sábio tempo a pôr os pontos nos is.



Está um mundo feio lá fora, e também cá dentro.


À parte do mundo das boas palavras, tantas vezes de circunstância, medimos tudo. Desacreditamos em tudo. Criticamos tudo. Uma necessidade imensa de ter o que dizer todos os dias, várias vezes ao dia, seja nas redes sociais seja nos outros contactos diários, e uma espécie de mola que impulsiona a convicção de estarmos mais certos, mais despertos, impele-nos à produção de juízos ou regozijo com juízos de terceiros - julgamentos do que nos parece errado, desajustado, medíocre, desonesto.


Deixamos de ser capazes de ouvir quem sabe mais ou simplesmente quem a cada momento acrescenta conhecimento ou reflexão. Desacreditamos nas intenções desinteressadas, quanto mais nas boas. Ou melhor, fazemos audições e leituras enviesadas, subtraindo da substância alheia o que nos convém para engordar o nosso arcaboiço argumentativo. Para enriquecer as gavetas das crenças da nossa massa cinzenta. Sem espanto, generosidade, questionamento – sem as raízes da busca do conhecimento.


A desconfiança mútua alastra. Precisamos de nos resguardar dos ataques desleais. Não queremos interlocutores, não queremos amigos, queremos fontes de argumento e intriga e anuentes. Se possível audiência que nos admire e respeite. Se possível que nos admire e respeite mais do que aos outros. Espelho meu, há alguém com mais razão do que eu? [...]


Esvaziamos a oportunidade e credibilidade das questões mais importantes e pungentes – as que de facto mereceriam o nosso pensamento e acção como contributo para um mundo mais saudável - neste afã de medir tudo a todo o momento, de nos resguardamos dos ataques desleais que não esquecemos, refreamos por receio e cálculo as boas palavras de genuíno e desinteressado elogio, incentivo ou felicitação a um amigo ou conhecido em momento ou dia especial. É um mundo feio, no qual engolimos em seco os bons sentimentos. Para lá das palavras de circunstância, para lá das palavras fáceis e vãs, temos dificuldade em ver o todo e as razões do lado de lá. Cada vez mais em rede aparente, cada vez mais fechados no nosso casulo. Cada dia mais argumentativos – “eu estou na minha razão” diziam as boas gentes da terra onde passei a infância – cada dia mais longe da raiz da razão.







Afinal resolvi não colocar a questão da IA em termos de entrevista, facilitei o nosso trabalhinho e optei pelo resumo do artigo lido na semana passada: What is artificial intelligence (AI)?. A síntese simplificada que se segue foi feita por duas cabeças-de-alho-chocho, Nuno Guerreiro da Silva e Isabel Paulos. É apenas um resumo do trabalho feito por outros e não tem outra pretensão que não seja esta: quem não está convencido de saber tudo e não tem tempo ou disposição de ler artigos sobre Inteligência Artificial, pode ficar com uma ideia dela numa explicação simples e acessível. É uma primeira abordagem. Antes de nos atirarmos a considerações sobre o carácter benévolo no malévolo da IA (são irresistíveis, bem sei) ou acerca das previsões do impacto nas nossas vidas (ou até sobre os efeitos já sentidos), precisamos compreender o que é e em que ponto de desenvolvimento se encontra.


*


Inteligência Artificial é a forma de replicar aspectos da inteligência humana. Conjunto de processos de catalogar e analisar doses massivas de dados, encontrando padrões e relacionando-os de modo a poder fazer previsões futuras, que utilizam características da inteligência programando através de: a) algoritmos, ou seja, regras ou comandos executadas passo a passo com vista à resolução de um problema específico; b) simulação de raciocino com vista à escolha da regra mais adequada à resolução do problema específico; c) tentativa/erro e d) criação de novas realidades.


Permite realização de tarefas que impliquem a leitura e interpretação de uma grande quantidade de dados de forma mais rápida e com menos probabilidade de erro. Para lá da IA estreita que é feita para concluir uma tarefa específica, a IA geral replica o cérebro humano: face a uma tarefa desconhecida usa lógica difusa aproveitando conhecimento de um domínio para outro.


AI já pode: a) ser uma máquina reactiva sem memória; b) utilizar experiências passadas para formar decisões futuras; c) interpretar emoções para prever comportamentos. Ainda não tem autoconhecimento ou consciência.


Funciona através de: a) automatização de tarefas repetitivas; b) algoritmos com ou sem categorização prévia; c) visão mecânica não sujeita aos limites biológicos; d) processamento de linguagem natural através de reconhecimento fala, tradução de texto e análise mecânica do sentimento; e) robótica; f) carros autónomos usando visão computacional, reconhecimento de imagem e aprendizado profundo e g) criação de conteúdos, isto é, geração de texto, imagem e áudio (IA generativa).


Tem aplicações práticas. Mediante o uso de algoritmos, interpretação da linguagem natural e visão computacional é usada: a) na saúde para diagnóstico e gestão de pacientes; b) nos negócios para gestão de stocks e clientes; c) na educação para avaliar e coadjuvar o educador na adaptação às necessidades do aluno; d) no aconselhamento financeiro; e) no direito para ler, classificar e interpretar grandes doses de documentos; e) no entretenimento e media: para direccionar publicidade, pesquisar e conferir dados e determinar conteúdos; f) nas TI para automatizar processos de recolha e selecção de informação e gestão do cliente - no futuro a IA poderá começar ela própria programar; g) na segurança para gerir sistemas de segurança através da detecção de anomalias, prevendo ou identificando comportamentos suspeitos, h) na manufactura através da utilização de robôs; i) no sector bancário para a gestão e aconselhamento de clientes através de análise de risco; j) nos transportes para gerir tráfego.


Há a convicção que a Inteligência aumentada simplifica a vida melhorando produtos e serviços. Disto se distingue uma superinteligência artificial, no domínio da ficção científica, que supere em muito a capacidade do cérebro humano de entender a própria inteligência e a forma como está a mudar o mundo. Não obstante já se está a investigar a computação quântica, isto é, a superação da forma de computação passo a passo na resolução de problemas específicos, possibilitando a execução de milhões de acções em simultâneo e com isso exponenciando através da alta velocidade a própria inteligência e a capacidade de resolução dos múltiplos problemas.


Sob a perspectiva ética é preciso compreender que para o bem e o mal a IA reforça o que já aprendeu. Pode ser usada para fins maliciosos, é o ser humano que selecciona os dados que são usados para treino dos programas. A ética da máquina é resultado aumentado da ética dos humanos que a treinaram. Daqui decorrem os perigos do viés e do uso indevido. Coloca-se também uma questão paralela: a própria natureza e multiplicidade dos dados e correlações num algoritmo pode implicar um processo de tomada de decisão não explicada - essa inexplicabilidade do programa exige uma caixa negra da IA.


Nos EUA ainda não há regulamentação sobre IA. Na Europa começa incipiente através das leis de protecção de dados, impondo limites ao uso e processamento de dados. A variedade e rapidez dos avanços tecnológicos e a obscuridade da natureza dos próprios mecanismos de IA dificultam a criação de leis nesta matéria.


No momento presente do desenvolvimento fala-se de IA generativa que funciona com um comando de entrada de natureza diversa (seja som, texto, imagem ou conteúdo de qualquer outra natureza) a ser processado pelo sistema de AI que devolve um conteúdo novo ou conteúdo-resposta.


Com as inovações actuais das ferramentas e serviços da IA caminhamos para a possibilidade de fazer processamento simultâneo tal como cérebro humano. Já se começa a conseguir treinar redes neurais em grandes quantidades de dados, ainda em super computadores (muito caros, pelo que dependem de investimento de Estado ou grandes instituições).


Os avanços nas ferramentas e serviços da IA a registar são: a) transformadores, isto é, automatização do treino da IA; b) hardwares mais rápidos nos processos paralelos de IA; c) transformadores generativos já treinados que podem ser vendidos a custo mais baixo por não implicarem todo o processo de aprendizagem e d) serviços de nuvem que vendem IA direccionada a mercados específicos.