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01/01/2024

Do lado de fora

O pensamento, o que dizemos, o que outros expressam é sempre ínfimo face ao todo - sempre parcela da realidade. O que faz da certeza uma ingenuidade, quando não uma anedota. Das imperceptíveis aos olhos de humoristas e demais entertainers, sejam escritores ou comentadores. Não é minha intenção desprezar, sequer criticar. Apenas pensar em voz alta sem a pretensão de julgar que descubro a pólvora.


Se os ditos muito cheios de graça ou certeza repetidos à exaustão sob constante aplauso e vasta audiência alastram no espaço público como ditames de sofisticada ironia, a que cada vez menos se contrapõe a reflexão, o mundo estupidifica. De cima para baixo na perspectiva de quem assim vê a vida. De quem confunde ter amplo auditório com estar no topo da pirâmide intelectual, nos píncaros da própria razão.


Ridiculiza-se quem pensa fazendo prevalecer verdades caducas. Certezas senis tão perfeitas na elegante redacção, bem vestidas, calçadas e perfumadas que parecem rejuvenescidas. Na aparência sábias, tolerantes e astutas. Sobretudo astutas. Vendem por soarem confortáveis às massas consumidoras de sound bites que se convencem informadas e capazes de análise. Regozijam as hostes. Uns dizem para muitos e a audiência sustenta-lhes a vaidade e a própria razão - pois se tantos nos ouvem, seguem e aplaudem, para quê sermos exigentes connosco próprios e com a verdade, o bem comum ou o simples rigor? Outros - muitos - ouvem poucos e satisfazem-se enfardando sempre mais do mesmo - pois se assim nos saciamos em companhia de plateia tão vasta, para quê dificultar o processo em busca de melhor pensamento?