Tantas vezes aqui passaste a ideia que te é cara de não gostares de relativizar o bem e o mal, o amor e o ódio, o verdadeiro e o falso e por isso mesmo talvez se fique com a ideia de excessos de rigor ou puritanismo. Não sabes, talvez passes essa imagem, talvez não. Mas vem isto a propósito de outra ideia associada: o calo de vida. Será muito difícil a quem não amou ou odiou compreender o amor e o ódio. Será muito estranho a quem não foi desamado perceber o que é o desamor. E a quem não traiu ou foi traído saber o que é a traição. Quão esquisito parecerá a quem não enfrentou nenhuma tragédia na vida compreender como o ser humano integra e normaliza todas as experiências até as mais drásticas? Que saberá do desprezo quem nunca foi desprezado ou desprezou? Tão estapafúrdio parecerá a quem vive com pouco a ambição de um milionário deslumbrado pelo luxo. Ou a este compreender o prazer das pantufas forradas a pêlo compradas numa loja chinesa ou um copo de três na taberna? Que saberá do roubo quem nunca foi roubado ou roubou? E da sensação de enterrar os pés no lodo do rio, antes da liberdade de nadar? E quem nunca enganou ou foi enganado de forma drástica, como entenderá as consequências da mentira e trapaça? O que saberá da dádiva sem contrapartida o oportunista? Ou o ingénuo do ardil? E por aí adiante. Há coisas que não se aprendem de ouvir dizer, do senso comum da rua, dos livros ou das conversas de circunstância. Ou se vivem, ou se sentem ou não. Falarão de cor. E escreverão linhas e livros de cor sem conhecerem as cambiantes do pensamento e da emoção. Os aventureiros e os poetas que o são conhecem o mundo por vivê-lo e por senti-lo, não por discorrerem acerca dele. Não há grande espaço aqui para cobardias, encolhimentos de emoções e razões. Ou se vive, ou não, ou se sente ou não. Ou se é, ou não é. Não há enredos e intrigas, não há histórias que perdurem do nada. Não se cria razão e emoção do nada por imitação, por ouvir dizer.
E agora que já riscaste os pilha-galinhas, passas directa a Eratóstenes para partilhares o que o Nuno te contou ao almoço. Bom, vais acrescentar uns picos porque consultaste o senhor Google. E recordas que isto vem tudo a propósito de um dos teus passatempos – há dois anos andavas virada para as tílias, agora para isto, não que tenhas tido benefícios com as entradas para as tílias, nem que os vás ter com este projecto, mas a tua vida faz-se assim: de curiosidade e puro gozo. O objectivo agora é compreenderes os fundamentos ou a inexistência deles da astrologia, que é uma matéria que aprecias. Se preciso fosse recuarias até Adão e Eva, todavia vais apenas até ao helenismo. Repare-se o que fazes para pores em causa aquilo de que gostas, e imagine-se o que serias capaz, se para aí estivesses virada, de fazer com o que não gostas. Voltando ao sumo: já depois de Pitágoras, o qual havia postulado que a Terra é esférica, viveu um senhor de origem africana – nascido ali da zona onde agora é a Líbia (vais tentar contar a história sem voltar a consultar a Internet) que sabia umas coisas de várias disciplinas – entre elas matemática, geografia e astronomia e foi director da Biblioteca de Alexandria, tendo encontrado por lá uns papéis – essas coisas que não convém perder por fazerem falta -, que diziam que em Siena, no Egipto, era possível ver o sol no fundo do poço ao meio-dia do dia Solstício de Verão, isto é, o sol ficava perfeitamente perpendicular ao solo não fazendo sombra. Ora, como este senhor tinha lampejos de inteligência lembrou-se de medir a inclinação da luz do sol noutra localidade e em seguida apurar a distância entre um lugar e outro. Contratou quem calcorreasse a distância a passo regular entre Alexandria e Siena e…
(as Mil e Uma Noites da Xerazade continuam amanhã… estou cansadita e amanhã também é dia.)