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06/01/2024

Abílio de Guerra Junqueiro

Morena


Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!


*


Porquê este poema hoje? Por uma razão simples. Na longa chamada telefónica de hoje com a minha mãe falámos de muito e entre várias coisas recordou que a minha avó costumava dizer poemas que tinha memorizados - sempre fiquei banza com a capacidade de fixar versos, coisa que me é impossível. Um deles era este. Não cheguei a dizer ao telefone, mas creio que a avó o dizia à filha por a minha mãe ser a morena da família. Outro habitual era o poema A Despedida, de António Correia de Oliveira. Agora que já recorri ao baú da família pela via feminina que é sempre rica vou escrever um diário para possivelmente publicar daqui a uma hora ou duas. Isto é, vou escrever insignificantes baboseiras, que têm todo o interesse por serem minhas, a pessoa de mais cerimónia neste blogue, quiçá a mais importante da rua. ;)