Aqui ficam as ligações para um punhado de postais do primeiro trimestre de 2023 com excertos.
Janeiro
Lembrei-me agora do que faltava falar. Há uns dias pareceu-me que alguém sugeria que tendo eu nascido numa família muito conservadora não o era. O Nuno diz que sim, que isso define o meu percurso ou movimento. Pelo que percebi acha que não sou carne nem peixe, ou seja, tendo para o liberal que aprecio, mas trago o conservadorismo do meio agarrado à pele. É certo que nasci numa família muito conservadora, mas nunca senti necessidade de rebelião. Agrada-me o conservadorismo, dou-lhe é umas valentes facadas quando não faz sentido.
E não somos. Tudo quanto nos parece evidente, tudo quanto nos é repelente num ápice pode mudar. As circunstâncias baralham os gostos e aquilo que dá ideia ser traço de personalidade, de carácter até, esfuma-se nas contradições mais saborosas da vida.
O dogmatismo diz mais das nossas fraquezas do que do conhecimento e valor que achamos possuir. Serve-nos de escudo para o desconhecido, que teimamos em catalogar de ignorância ou deseducação.
E agora passemos a gatos e à beijoquice.
Fevereiro
É verdade que a falta de juízo crítico e a notória falta de conhecimentos de História (às vezes, em supostos estudiosos da área) de vasta percentagem da população não augura nada de bom, mas não sei se isto por si só explica a decadência. Afinal o mundo nunca deixou de ser assim: uma elite com acesso ao conhecimento e ao poder face a populações manipuláveis. Apesar de hoje compostas de cada vez maiores camadas de gente mais “informada”, com mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos do que nunca - e mais convencidas da sua ciência do que nunca. Desde criança não consegues ficar-te por uma ideia isolada. Ao pensamento acorre-te sempre pelo menos a afirmação e a negação, a luz e a sombra. Desde criança à ideia vem-te sempre um novelo. Nunca foste pragmática, senão por obrigação de sã convivência. Tinhas de viver, tinhas de decidir, por isso andaste para a frente indo e decidindo às vezes com grande desembaraço outras de modo mais desajeitado, mas sempre na dúvida. Na dúvida se tinhas feito bem, escolhido bem, dito bem, escrito bem, respondido bem. E a dificuldade não estava necessariamente entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Não há aqui perfeccionismo. Nem o problema é o de agradar. Está além disso: sempre foi uma monumental dúvida íntima. Eterna dúvida e eterna insatisfação com que aprendeste a viver, começando a entender que o teu maior medo é o de fugires ao que acreditas, ao que consideras verdade, ao que és. Se estiveres enganada, estás tramada. Cai tudo por terra: cais tu própria. Uma aposta furada. Ou não. Uma mão cheia de nada. Ou não. É um risco viver. Hoje discursou, a besta. E claro o mundo parou para o ouvir. Há uma coisa que te assusta na atitude pensante de muitos comentadores. Chamas: estupidez de menina tonta. Parece misógino e talvez seja, mas se não admitisses que assim apelidas não estarias a ser honesta, e não gostas de fugir à franqueza. Mas onde está a estupidez, afinal? No constante desacreditar da inteligência de Putin. E a menina tonta de onde vem? No facto de conheceres entre muitas meninas este tipo de argumento: ah, é racista porque é ignorante, é machista porque é ignorante, é xenófobo porque é ignorante. A menina tonta pensa erroneamente que o conhecimento é garantia de bondade. Não é. As meninas e os meninos tontos julgam que a informação, a leitura afastam os homens da barbárie. Não afastam. Era bom que assim fosse. Os jornais e as livrarias ocupariam as farmácias, os jornais e os livros substituiriam os ansiolíticos, os antidepressivos e antipsicóticos. Era muito bom que assim fosse, mas infelizmente a realidade é um pouco diferente. Isto a propósito das análises aos discursos de Putin, que menorizam a inteligência do facínora ou a sua falta de conhecimentos históricos, militares ou de qualquer outra natureza. Subvalorizar o inimigo não é muito inteligente. E bem sabes que se vive na sociedade de informação e imagem veloz, na qual se pode destruir um perfil através da montagem artificial de retrato pejorativo. É claro que pode haver uma estratégia de desacreditação para enfraquecer o criminoso. Isso faz sentido, o que não faz é acreditar em fraquezas do inimigo que não existem. O perigo não está em exteriorizar a fraqueza de Putin, expondo-a, mas interiorizá-la, acreditando nela. Voltemos à bondade do conhecimento. Dizem-me que há qualquer coisa de Platão nisto. Há, mas não vou explorar. Obrigar-me-ia a ler e quero continuar o presente texto. Procurem a coincidência entre o bem e a sabedoria por contraposição da correspondência entre o mal e a ignorância. Tudo isto para dizer que se este facínora suspendeu o mundo não é com certeza burro. É um criminoso, mas não um imbecil. Tal como o Ocidente não é a entidade virtuosa impoluta propalada na comunicação social, pelo que conviria ouvir como Putin a demoniza.E o contraste: quando saía de dentro da água, ao pousar os pés junto à vegetação, que era mato, tudo ardia baixo rente ao solo, ali junto aos pés e à água que em leve ondulação quase beijava o lume. Levantei os olhos e a vista era ampla e descoberta: toda a serra ardia, sem que tenha sentido sinal de medo. Em tranquilidade via a chama mansa e quente, como se fosse veludo, queimar a vegetação, mas seguia sempre por onde não queimava. A temperatura tépida era perfeita. Não havia fumo de espécie alguma e pensava sem me assustar em momento algum do sonho: há água e posso chegar à estrada, é tranquilo.
Março
Hum, primeira pipoca: a forma como somos (todos) sugestionados e orientados pelos assuntos de actualidade e o pensamento dominante sobre eles, por mais juízo crítico estejamos convencidos possuir. Segunda pipoca: não perder mais tempo a procurar resposta para o que não tenho solução e colocar a questão: será que a voz dominante obedece a algum critério de lógica e tem uma proveniência identificável que exerce controlo ou entramos em roda livre? Vou-me ficar por estes dois itens. Já não faço a mais pequena ideia do que pensei enquanto trabalhava, mas vou tentar escrever ao correr da pena, aliás, dos dedos.Melhor ou pior conheço muita gente que está em cima do acontecimento. Cada vez há mais gente em cima da actualidade. E também sempre conheci gente que procura desvincular-se do mundo das notícias para sobreviver saudável. Funciona por fases: momentos de mergulho da actualidade entremeados com um certo situar nos interesses próprios para chegar a ter vida sem carregar o peso do mundo às costas. Sim, porque salvo aqueles que vivem o mundo das notícias de modo lúdico-profissional – género jogador de Las Vegas – ou aqueles que sabem relativizar, adequando o mundo da informação aos próprios interesses - género pragmático -, quem tem sensibilidade dificilmente consegue sobreviver lúcido depois de se atolar no mundo da informação ou desinformação. O despejar constante de factos e contra-factos, opiniões e contra-opiniões é atordoador e paralisante, podendo inibir mentes e vidas saudáveis.Independentemente do modo como protegemos os nossos interesses, do género de cada um - no fundo somos sempre um misto entre o que mergulha a fundo nas notícias e o que delas tira proveito ou guarda distância para prosseguir os seus próprios interesses -, todos sucumbimos em maior ou menor grau às verdades do momento. Quanto mais não seja e na melhor das hipóteses damos por nós a dizer coisas redondas para não enfrentar os ditames da vida moderna. E por mais eriçados se mostrem alguns - os anti qualquer coisa, por exemplo, anti politicamente correcto ou puritanismo na linguagem – numa série de outros assuntos já sucumbiram aos ares do tempo. Cada um guarda ou começa a promover à medida que vai envelhecendo o reduto de conservadorismo que convém, aquele que considera indispensável para se manter à tona social, económica, moral ou intelectualmente.Mas de onde virá esta voz global dominante que nos põe todos a falar dos mesmos assuntos e, em muitos casos, a criar uma onda de artificial coincidência de opinião ou de barricada? Somos orientados?, como nos dizem as paranóicas teorias da conspiração? Por quem? Desde que o mundo é mundo por quem quer poder e quem quer ganhar dinheiro. A busca de poder e dinheiro e as consequentes lutas e divisões por causa deles sempre dominaram os destinos da humanidade. Nada de novo.
E agora os lados. Como é sabido quando há guerra ou na antecâmara da dita, é necessário definir posições. Como és pueril vais recorrer novamente à imagem dos jogos de infância, quando não aceitavas que houvesse quem não se definisse, preferindo a neutralidade, que associas sempre às uvas americanas. Mas isto nada tem a ver com os Estados Unidos ou os seus habitantes. Apenas diz respeito à resposta que tanto te intrigou (não estás certa se à época te irritou) que duas outras crianças (mais velhas) te deram enquanto comiam descontraidamente uvas americanas no momento em que duas equipas se digladiavam: nós estamos neutros. A Suíça da ocasião. Depois de recuar à infância, retrocedes trinta e tal anos anos para voltares a lembrar que na tua adolescência dos anos 80 não tinhas a menor paciência para comunistas e o seu oportunismo e aproveitas para dar uma pincelada no cômputo geral dos últimos cinquenta anos para dizer que não comungavas da mentalidade de esquerda preponderante em Portugal. E por fim recuas apenas um par de anos para contares que disseste a alguém muito próximo que entre a extrema-esquerda e a extrema-direita tendias, apesar de tudo, para a aceitar melhor a primeira. Vais agora tentar contextualizar e explicar que daqui não advém nenhuma complacência com regimes autoritários, anti-democráticos e desrespeitadores dos direitos humanos, mas antes uma postura pragmática de busca de equilíbrio, de quem reconhece à esquerda um papel de contrapeso dentro de Portugal num futuro próximo que se prevê tender para a direita e a extrema-direita – poderás é estar a enfermar do erro de aceitá-lo cedo demais legitimando agora um peso ainda excessivo e não um verdadeiro contrapeso.Como vais desenvencilhar este nó que até hoje não desenleaste é um mistério para deixar para próximos postais, cujo teor desconheces tanto quanto desconhecias as linhas precedentes. O que estás a tentar fazer é pensar em voz alta e em público para ver se te entendes a ti própria e ao mundo. Quem se predispuser a ler terá que ter muita paciência e uma coisa é certa: não encontrará referências múltiplas a obras e autores consagrados – quanto mais não seja por os desconheceres -, não verá definições de conceitos de ciência política, nem se deparará com elencos históricos. Para isso existe gente que estuda e sabe, é uma questão de os ler. Nas Comezinhas há sim sensações, com a particularidade de pontualmente poderem ser representativas da forma de sentir a realidade do comum mortal, tão só - há quem lhe chame ignorância.
E a guerra? Onde fica? Ainda não vais directa para ante-estreia da dita nos jornais que variam a entrega de factos ao domicílio entre momentos quase in extremis de escalada do conflito para fora das fronteiras da Ucrânia e o repisar das empolgações ideológicas que antecipaste na Ana Paula. O mundo está sensível, o país está sensível, como era previsível que estivessem. Vais deixar a guerra propriamente dita para depois e dizer que a polarização ou radicalização decorre do desfasamento do espaço público face à realidade.Durante anos, décadas, engendrou-se inverosímil mundo fabulado no discurso da comunicação social – à imagem e para sustento de quem ascendia sem esforço nem especial mérito aos megafones da sociedade. Tudo decorria tranquilamente, até porque enquanto isso sucedia, a população ascendia ela própria a patamares de conforto económico e a uma qualidade de vida nunca antes vista. E quando quase tudo corre bem a verdade fica adormecida no doce leito das facilidades. Não se vêem as desigualdades e injustiças diluídas no movimento de progresso que confere aparente imagem de bem-estar comum. Ficam debaixo do tapete, fazem parte do indizível no espaço público, do proibido.Ora, neste contexto, qualquer abanão nas condições materiais da população – agora genericamente habituada a níveis de conforto muito distantes da realidade dos pais e avós – põe a nu o logro, a ficção da justiça no acesso ao bem-estar. E a mais recente inversão do cenário - com regressão na qualidade de vida e baralhação dos cérebros por efeito do desajuste no rápido desenvolvimento das inovações tecnológicas, na inabilidade para as usar de forma eficiente e na susceptibilidade do seu uso malicioso -, desnuda gentes muito mais exigentes e reivindicativas, esquecidas do passado, cada vez mais afogado nas catadupas de informação e entretenimento vendidas pela comunicação social e redes sociais. A memória curta convém ao discurso dominante. Vinga gente cada vez mais individualista - longe vão os tempos em que se lutava por um país melhor, hoje luta-se por um lugar para si próprio, amigos ou classe profissional cada vez mais perto do sol, mais exclusivo, mais radioso. Ambições incomportáveis para o todo, em que ninguém parece estar interessado, tanta é a ambição individual ou tribal. Aspirações quantas vezes desacompanhadas de empenho próprio de produtividade e em desrespeito pelo esforço dos outros. Quando não desprezo ou ódio propriamente dito pelo outro.Ah, a solidariedade, onde vai ela? Palavra antiga e em desuso. E o papel da comunicação social nisto? Dar eco à intriga política disfarçada de luta pela melhoria das condições de trabalho e vida – notícias, artigos e reportagens por encomenda de interesses corporativos. O caricato é que o faz no intervalo de dar eco aos mais selvagens interesses liberais ou de sacrificar um qualquer sector da sociedade malquisto por uma qualquer vaga noticiosa, ou de beatificar indivíduos ou grupos sem especial mérito. É o desnorte total. Os megafones dados a quem berra mais alto na defesa dos seus interesses egoístas, sem qualquer critério de justiça e bom senso. Tudo abana, como previsível.(há-de continuar).