A manhã teve pequena alteração ao rame-rame, uma hora fora do edifício onde trabalho há 21 anos, com interrupção de dois. Um simulacro de incêndio com evacuação. Já foram sendo feitos vários, mas por uma razão ou outra nunca me encontrava no local. Deram-se em horário de almoço ou férias, pelo que foi a primeira vez que participei num exercício destes com intervenção de bombeiros e equipas de evacuação. É útil para perceber as asneiras que fazemos e preparar-nos para uma eventualidade desagradável. Quem como eu já passou por um incêndio em casa sabe como é importante aprender a lidar com a situação.
Passando para a tarde, na qualidade de portuguesa não podia deixar de fazer mais um apontamento sobre o estado de saúde – não perguntes a um português como ele está, ele responde-te. Neste caso nem é preciso perguntar. Conto mesmo que não queiram saber. Já sei porque ontem me desejaram as melhoras. Hoje em mais uma conversa profissional, um senhor teve oportunidade logo no início do diálogo de me fazer notar que estava apanhada da garganta e com problemas de voz. Juro que ainda não tinha reparado, mas é verdade: falha-me a voz. Ando a fazer falsetes (será que as mulheres estão autorizadas a fazer falsetes?, ou é exclusivo masculino). Neste último mês e meio tenho estado cercada de gente com constipações e gripes de diverso tipo, mas nada me tocou senão espirros, o pingo e agora a falha na voz.
À noite fui à farmácia herdeira deixar mais uma batelada de pecúlio à conta dos nutrientes, como minerais, que deixei de absorver e por isso preciso repôr.
Ainda ao final da tarde enquanto trabalhava ouvi Barbra Streisand. Não ouvi o Memory do musical Cats – colada no post anterior -, mas não consigo dissociar a sua voz desta música. Mais nova e durante anos a fio tentava entoar a melodia que adorava como uma desalmada a desafinar estridente para gáudio dos meus sobrinhos então pequenitos. Não sei que raio de memórias invocava à época – a tia não é assim muito adulta retorquiu a minha sobrinha num almoço quando contava pelos dedos os adultos esquecendo-se de me incluir. Que felicidade era essa que queria recuperar? Não há nada como ser tonta e ter pouca vida para recordar. Ou então não, já havia muito a reaver. Outra que adorava, essa ainda na casa dos vinte era o Don't cry for me Argentina, para gozo do Nuno e meu amuo. Quando somos novos o épico atrai, vá-se lá saber porquê, e não são os enjoos opinativos dos expertos da música pouco dados a sinceridades que me impedem delas. Além disso não procurem nas Comezinhas intelectualizações e abstracções do meio em que vivo e do que me é caro, nomeadamente, família e amigos. Não consigo nem quero dissociar o que leio, oiço ou vejo dos elos que me atam à vida. Pensamentos e sentimentos depurados da própria biografia, assépticos, não são comigo. Preciso saber do que estou a falar em vez de perorar dando o ar indiferente e frio de sábia sofisticada.
Mais? Sei lá. O barulho da máquina da roupa a lavar os lençóis está a encanitar-me. Há dias em que nem me apercebo deste tipo de ruídos, noutros irritam-me, mas adiante. O que é bonito na sã convivência? O que se vai cedendo de nós e aspirando dos outros (a frase ficaria gramatical e literariamente mais bonita depurando-a ao “o que se vai cedendo e aspirando”, sucede que se dissesse desse modo, percentagem significativa dos poucos que me lêem interpretariam coisa diferente do que pretendo dizer e não devemos escrever para a forma e o efeito, mas para ser entendidos; não estou a menosprezar ninguém, antes pelo contrário, a tentar respeitar todos). Eu e tu. Nós e vós. E todos os eles que somos nós mesmos do outro lado do olhar ainda que muito avessos. Somos peças moldáveis ao longo da vida, como a plasticina. Bem sei que é preciso não dobrar a espinha, mas o corpo envolvente que é feito do nosso pensamento e sentimento vai-se fazendo e refazendo ao longo da vida, numa eterna e mais ou menos volúvel composição. Pensando assim é-me muito estranho pressentir o empedernimento das almas ainda que postiço. O que mais me ofende? Não confiarem em mim. É estúpido, sei. Ninguém tem a obrigação de confiar. Sobretudo se não conhece ou conhece mal. Mas não há como alterar este sentimento em mim. Sinto a desconfiança como uma dúvida acerca da minha honestidade. E não é que me tenha por mais honesta do que outros, é por me ter habituado a acreditar apesar das decepções e das pretensiosamente chamadas lições de vida. Fui educada a confiar e a aprender a respeitar os outros não desconfiando por mesquinhez e medição permanente de vantagens. É evidente que abro excepções e nem sempre confio, mas não inverto o ónus da prova. Além de mais, verifiquei de modo prosaico que quem muito desconfia, em regra, não é de confiança. Ofende-me o cálculo e a desconfiança sobre mim e genericamente acerca dos demais: não perdoo, tal é o tamanho da ofensa. Não é que ao longo da vida tenham desconfiado muito, mas não passou em claro cada afronta. E quando falo em confiar em mim e nos outros refiro-me não só em acreditar na seriedade e na falta de vontade de ludibriar ou tirar vantagem mas também em confiar nas competências, nas capacidades, nos talentos de cada um, não fazendo pré-julgamentos básicos, esses sim desonestos porque baseados em preconceitos e em tacticismos. Não é nada cristão não perdoar ou até será, afinal há aqui um conflito de valores entre o respeito que se deve ao outro e a capacidade de perdão. A que propósito veio isto? Ia escrever: não faço a mais pálida ideia. Mas seria só enfeite. Creio que sei de onde veio isto. Já o tinha pensado há muito, há anos. Porque saiu agora? Não sei. Deve ser efeito da psicoterapia feita neste divã chamado Comezinhas. Dá para tudo, este blogue.