Portugal é um país muito pequeno não sob o ponto de vista histórico e geográfico, mas das relações. Neste rectângulo com ilhas toda a gente trabalhou com alguém filho do dono da casa onde casou alguém que passou férias com alguém que disse mal de alguém e teve namoro com alguém que processou alguém a quem comprou alguma coisa herdada de outro alguém que encontrou no jogo de futebol com o primo de alguém que é sócio de alguém que esteve em casa de alguém que no restaurante comeu na mesa do lado de alguém que roubou alguém que encontrou no enterro de alguém onde animada e afectuosamente se beijam, abraçam e confortam todos os alguéns, antes de saírem aos pares a difamar os outros pares de alguéns que acabaram de beijar e abraçar, ao mesmo tempo que bradam contra a situação deplorável do país.
Em criança muitas vezes ouvi dizer a alguém que teria agora 105 anos que pensou escrever as memórias, mas escusou-se fazê-lo por saber que muitos se melindrariam e consigo se zangariam. Sorrio ao lembrar disto e tomo nota que a cada passo que alinho as letras umas atrás das outras, penso quantas delas seriam tomadas como ofensas se fossem ditas a direito. Mesmo como todas as cautelas e tentativas de subtileza, muitos se sentirão ofendidos.