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19/04/2021

Arca d' Água

 


Ao vasculhar escritos não publicados encontrei esta carta de 23/08/2017.


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                                                                                                                 À Maria


 


Quanto aos rapazes, quero que saibas isto: não te culpes por te teres envolvido na conversa fiada dos artistas. Não te zangues contigo ao descobrir leviandades, puritanismos e falsas moralidades. Percebe as tretas úteis. Vive com as ambições que iludem os sonhos. Partilha as manhas do preconceito em jeito de crítica literária. Fixa os tiques da sobranceria em conferências de egos. E verás certezas em corpos errados e caracteres acobardados.


Contra vontade cairás na armadilha. És mulher. Não há volta a dar. Um dia um qualquer artista te humilha. Terás vergonha do ridículo. Esconder-te-ás da tua figura. Temerás os outros: o que dirão, o que pensarão. Deixa-os zombar. Chegará o momento em que nem a lembrança do artista respira. Deixa-os tombar.


À mágoa incrustada seguirá a fúria esmorecida e tudo acaba na sabedoria do teu sorriso. A alegria da infância regressa e voltas a acreditar, mas não em artistas. Devagarinho regressa o homem que te ama, compõe a música para o teu poema e tu sabes que ele mesmo é arte.