
Sempre que sinto no ar laivos de intelectualização e o debitar de teorias sobre o sexo dos anjos em vez de se ir directo ao concreto, reduzo-me à minha insignificância e remeto-me para assuntos à altura das minhas capacidades cognitivas.
Hoje, vá-se lá saber porquê, lembrei-me da História do Macaco do Rabo Cortado, de António Torrado. Em criança ouvi este conto vezes sem conta, como muitos outros, no gira-discos das histórias infantis. Isto sim, está ao meu nível de compreensão. Hoje não o encontrei, mas coloquei em cima a imagem de alguns dos contos infantis que ajudam a perceber de que matéria é feita a vida antes de começarem a enredá-la metendo os pés pelas mãos em razões e pretextos que servem sobretudo para justificar o injustificável.
A cantada final do conto do macaco é esta:
"– Olha o macaco mariola
que de rabo fez navalha
da navalha fez sardinha
da sardinha fez farinha
da farinha fez menina
da menina fez camisa
da camisa fez viola
e agora deu à sola
e agora deu à sola.
O macaco no telhado repimpado pegou na viola e respondeu-lhes:
– Pois se agora dei à sola
Pois se agora vos fugi
É que a mim ninguém me enrola
E de mim ninguém se ri.
Timglintim, tinglintim.
Timglintim, timglintim.
Cá em baixo, continuava a surriada. Riam-se e cantavam para ele:
– Olha o macaco mariola,
estarola e gabarola
com pancada na cachola,
dá e tira, mata e esfola,
ora parte, ora cola,
ora mete para a sacola…
Dá a esmola, tira a esmola,
mariola, mariola
quem te meta na gaiola,
quem te meta na gaiola.
Mas o macaco no telhado respondia ao desafio:
– Não me metem na gaiola
que de mim ninguém se ri.
A tocar nesta viola,
tinglintim, tinglintim,
a dançar com castanholas
vou daqui para Madrid.
Sou macaco mariola
e rei do charivari,
porque a mim ninguém me enrola
e a tocar nesta viola
tinglintim, tinglintim
não tenham pena de mim.
Tinglintim, tinglintim
não tenham pena de mim,
tinglintim, tinglintim
não tenham pena de mim…
Foi-se embora o macaco…”