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23/04/2021

Contas & Intimidades

Porto-Gaia.JPG


Tema em que perco algum tempo: casas.


A primeira casa que comprei era uma caixa de fósforos num terceiro andar sem elevador, em Gaia. Recorri a crédito habitação, que liquidei quando a vendi. Depois adquiri a segunda casa, em Lordelo do Ouro, no Porto, numa altura em que ganhava quase o dobro do salário de hoje, com recurso a crédito para 55% do valor, numa época em que os preços dos imóveis estavam em baixo. A prestação rondava 15% do salário. Considero obscenos os preços do imobiliário em Portugal face aos salários praticados e acho imprudente a taxa de esforço de 35%, nunca tendo tido um empréstimo habitação acima de 20% dos rendimentos (de trabalho, naturalmente) nem lançado mão da fiança, apesar de ter comprado os dois primeiros apartamentos sozinha. No início de 2018, aproveitei os preços estarem em alta e vendi o apartamento (qual Robles, mas sem arrendatários lá dentro e sem esticar a corda do valor, tendo aceite uma proposta logo na primeira semana de anúncio) com um ganho de cerca de 55%, o que me permitiu liquidar o empréstimo e ainda ter um pequeno proveito extra (uma vez que já havia amortizado parte). Em seguida, com esses ganhos comprei em compropriedade 50% do apartamento onde estou agora, na freguesia também cara de Cedofeita, mas numa zona mais modesta e num prédio dos anos 60. Livrei-me do crédito habitação.


Como eu, ou em situação semelhante, há centenas de milhares de portugueses. Nas palavras da luminária que nos governou entre 2005 e 2011 somos crianças - bem sei que se referia a dívida pública, mas já vimos que geriu o país como as suas finanças pessoais. Não haja dúvida que nos tem custado continuar a ser infantilizados aos 20, 40, 60 ou 80 anos assistindo à cena triste de ver conterrâneos batendo no peito em defesa das injustiças e más palavras dirigidas ao antigo Primeiro-ministro.


A isto não se chama inveja nem espírito justiceiro, mas mínimo de decoro. A menos que valha tudo e não tenhamos um pingo de respeito por nós próprios e pelo esforço na vida. E bem sei que os assuntos dívida pública, país e Sócrates não são temas no dia do livro, mas convém recordar que para adquirir livros é preciso dinheiro e disponibilidade mental, tantas vezes ocupada com problemas mais prosaicos a resolver. Dinheiro e literacia financeira, esses assuntos sujos que em Portugal poucos gostam de falar ou sobre os quais e entre intelectuais se fala com desprezo e desconsideração, misturando factos e falsidades como pretexto para tudo continuar na mesma: pouco transparente, pouco compreensível, num eterno enredo de país com atraso sistémico, que dá pano para mangas a infindáveis debates de ideias sobre o sexo dos anjos. Nada a estranhar num país com uma das maiores dívidas públicas do mundo e que gosta de se rir e desdenhar das regras e sovinice nórdica, considerando-as desprezíveis face ao despojamento luso. Também acho lindo o despojamento, mas à própria custa e não à custa dos outros. Caso contrário, não é despojamento, mas desfaçatez.


Face ao mercado, quando ponho a hipótese de me dar o gosto de ter uma casa melhor (um devaneio porque a casa onde estou é boa), em vez de gerir a dívida futura, pondero mudar-me novamente para Gaia, onde os preços são substancialmente mais baixos. Vidas de criança.


Preço m2 - Porto.JPG


Preço m2 - Gaia.JPG


Imagens daqui: Idealista.