Há talvez dois anos um homem teve um pesadelo e, num ataque de fúria e em defesa da honra, a dormir saltou da cama para esmurrar o agressor, acabando a desfazer a cabeça numa estante do quarto. Ficou em péssimo estado, posso garantir. Esse homem viveu em Angola e passou por situações muito difíceis, mas sempre me disse que nunca sonha com isso, nem considera ter traumas de guerra. Sempre falou de tudo desassombradamente e sem os requebros romanceados e as fantasias que têm muita saída comercial no país do faz de conta.
Depois do estenderete e de cosidos os pontos, foi fazer a TAC. Ao levantá-la, o técnico de diagnóstico estendeu o papel com o resultado e disse: o senhor esteja descansado que não tem nada no cérebro. Ao que o examinado respondeu: eu já desconfiava. O técnico replicou: ah, o senhor já achava que não era nada sério. Ãh, ãh, desistiu o seráfico ferido ao vir-se embora com o papel na mão.
Quando me contou a cena ri desalmadamente apesar de estar face ao meu pai, que aos setenta e seis anos se via com a cabeça e o rosto desfeitos num oito. Rimos todos, como de costume. A única maneira de levar a vida a sério.