Texto corrigido. *
Ora, aí vou eu lançada outra vez. E continuarei a insistir até que os dedos me doam.
Pergunto-me muitas vezes de que massa são feitos alguns críticos das falhas alheias, a quem nunca se ouve admitir erros. Apontam faltas de carácter aos outros, como se fossem de uma lisura a toda a prova. Acusam outros de transgressões e ilicitudes como se não prevaricassem. Ridicularizam a gramática dos outros, como se o seu português não fosse pouco mais do que um aglomerado insípido e sofrível de letras sobrepostas.
Uns, um nadinha mais evoluídos de ouvir dizer, percebem que não há puros e prontificam-se a fazer gracinhas sobre as falsas moralidades. Mas qual é o momento que escolhem para o fazer? O da auto-defesa camuflada ou da defesa de amigos de oportunidade, claro. Os amigos de interesse de que sempre se rodeiam e são rodeados. Em nome de suposta superioridade intelectual saem em defesa de canalhas com quem partilham sórdida concepção do mundo.
Mais tiques deste tipo de gente? Considerar ou desconsiderar terceiros em função da aceitação que tenham ou não por membros influentes dos clãs que julgam oportuno integrar ou bajular até forçar a entrada. Perfeita incapacidade de perceber as qualidades de terceiros se não forem referenciadas por alguém cuja opinião considerem por devoção sectária.
E quão confrangedor é ver esta gente citar Eça – é sabido que qualquer bicho careta pouco mais do que analfabeto cita Eça para mimetizar a intelectualidade de trazer por casa – ou enaltecer os poetas e prosadores do regime – em bicos de pés bem esticados à procura de igual aceitação -, ou perorar sobre os descalabros da governação nacional e a fraca educação e instrução dos portugueses. Longe de perceberem que são eles próprios - convencidos das sua importância e superioridade, mas alçados sem verdadeiro critério de qualidade à elite do país – que fazem desta terra a choça que é.
E passa do aflitivo ao divertido – para não nos afogarmos no lodo – ver esta gente criticar a corrupção, as endogamias e a falta de elevador social. Este último existe. Os critérios para ascender à elite nacional é que são de fugir (de susto): por cada pessoa de valor alçada pelo seu valor, noventa e nove trepam e vivem do encosto, das referências mútuas, dos interesses e da dita corrupção. E não é por gritarem muito contra a endogamia que não se percebe que tudo quanto fazem na vida é viver nas e das tribos. É bem conhecida a táctica, mas ao atacarem os fantasmas da falta de mérito para afastar os olhares da própria mediocridade só conseguem convencer outros membros medíocres da tribo.
A verdade é que, na maior parte das vezes, o mundo do mérito passa ao lado desta gente, apesar das vaidades e de sempre terem o dedo apontado à vulgaridade, aos erros e imperfeições de quem faz a vida do lado de fora dos guetos da intelectualidade.
A vida tem-me demonstrado à saciedade que quanto mais arrogante é alguém menos qualidade intelectual tem e mais mau carácter é. Aprendi sempre bastante mais com sóbrios sabedores que cultivam a aprendizagem e a passagem do testemunho sem alarde nem achincalhar quem se mostra interessado em aprender. Enfim, gente sábia e humilde a quem devo muito. Mas lá está, humilde não é um adjectivo em voga, nem ser humilde é valorizado nos guetos da vaidade. Não é o conhecimento e a sabedoria que procuram, mas a glória. A glória do medíocre.
*Texto corrigido uma hora depois da publicação. Ainda assim é natural que tenha erros e gralhas para gáudio dos puros detentores da perfeição.