Muito sono ao acordar apesar das seis horas dormidas. Anda por aí défice de descanso. Há mais de meio ano que tento combinar com a M. uma caminhada na marginal de Gaia. Tínhamos apontado para amanhã de manhã e, como sempre, tivemos pontaria desastrosa. Choverá. Ficaremos pelo café. Vai daí, e já que estarei perto da casa da T., telefonei-lhe a dizer: amanhã de manhã vou tomar café com uma amiga perto de ti, podia passar em tua casa. Diz a T.: espera, que é que disseste? Tomar café de manhã, amanhã? Domingo? Deixa tirar uma fotografia à minha cara para te mostrar. E pronto, lá veio por whatsapp a cara da T. toda feita careta retorcida. Lá se lembrou que há 30 anos (e também há 25) tinha muita dificuldade em tirar-me da cama às 3 da tarde em dia da semana para irmos tomar café juntas. Vidas. E o que o tempo fez delas.
De tarde depois destas conversas decidi ir à Bertrand. Entrei com ideia de comprar um livro de contos para oferecer. Mas afinal não foi esse o sucedido. Logo me anunciaram quais as mesas das promoções e aproveitei para trazer mais um daqueles livros ‘prá reforma’. Esta coisa de fazer de conta a mim própria que leio é estapafúrdia. Se tenho a azareco de morrer antes dos 67 – a simulação da Segurança Social Directa só me deixa ler a tempo inteiro nessa altura –, corro o risco de deixar nas minhas estantes mais livros virgens – bom, não totalmente, por serem raros aqueles com quem não dei uma pequena voltinha – do que lidos na íntegra. Comprei então o livro ‘prá reforma’, mas que poderá eventualmente ser lido no próximo par de anos, por ter ouvido por aí que é daqueles autores de sentido obrigatório. ‘Ósdepois’ andei à cata de coisa que me desse mesmo gosto oferecer – e ler, já que tenho o hábito pouco educado mas muito proveitoso de ler os livros que ofereço. Depois de muito espiolhar obras várias, os meus olhos pararam em Clarice Lispector e, em concreto, em Água Viva. Passei o resto da tarde a lê-lo e fui enfeitiçada. Ainda assim e apesar do sono que não me larga desde manhã, fui capaz de voltar à tona depois de mergulho profundo neste espontâneo e intrincadíssimo monólogo existêncial no feminino. Não é difícil imaginar que gostei muito do correr da pena e do corpo solto ao sabor do pensamento em torno do eu, que vai engrossando em densidade. Uma boa oferta. A primeira presenteada já beneficiou com a leitura.