Pela manhã pensei escrever um postal sob o título ‘candura‘, que se debruçaria na alegria de descobrir ingenuidade entre pessoas que de uma forma ou outra se destacam. Pessoas que nunca perdem a humanidade num mundo em que a todo o momento se ouve e lê gente com vontade de esconder a essência do que é para criar uma falsa imagem de sofisticação à semelhança sei lá do quê. Pequenos detalhes ou alusões patentes nas frases ditas ou escritas denotam essa tentativa de demarcação de territórios julgados menores, infantis, enfadonhos ou simplórios. É a busca da sofisticação tantas vezes postiça, mal encaixada no perfil que se pretende embelezar.
Pensei em deixar o texto apenas como agenda para outro dia, de modo a não continuar a massacrar quem passa nas Comezinhas com as minhas moralidades. Tenho abusado nos últimos dias e devia estar a tentar compor o texto sobre a China ou a ler as notícias do mundo de que ando arredia, mas a verdade é que estou com preguiça e é sempre mais fácil debitar comentários moralizadores.
No meio profissional – mas também nas relações pessoais – onde nos deparamos tantas vezes com pessoas egoístas e desatentas às outras, que são o mais das vezes aquelas em quem mais se denota a valorização da aparência e da necessidade de afirmação pela tentativa de sofisticação, é menos comum surgir alguém que ocupa um lugar de responsabilidade com um perfil de candura. Não são abundantes, mas existem. Conheço mal um caso na área da banca. Um homem competente e sério, capaz de empenhar a sua integridade para ajudar terceiros a prosseguir um caminho empresarial e profissional de rigor, delicadíssimo com todos, incluindo os sem-abrigo. Com certeza terá falhas graves que ignoro por conhecer mal, mas quando o vejo no seu fato sempre muito igual, à hora sempre igual, envergando passo leve e sorriso cândido sempre iguais, cumprimento-o com estima e respeito e pergunto-me sempre: por que será que não são estes os exemplos que vingam? É certo que há muita gente boa no mundo. Por que carga d’água se tentará admirar e imitar os piores exemplos?