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15/05/2021

Umbigo

Hoje é dia de postal preâmbulo. Vêm aí mais escritos egocêntricos, narcísicos e exibicionistas. Daí a necessidade do aviso prévio. Não porque renegue tantos defeitos – assumo-os -, mas por sentir precisar de explicar esta queda inevitável para aquilo a que pomposamente se chama cunho diarístico ou pendor intimista da prosa. Há seis ou sete anos quando comecei a escrever diariamente – nos primeiros anos apenas para mim, dando a ler a três pessoas -, pus a questão que continuo a colocar: enquanto não aprender a deixar de falar de mim quando escrevo e começar a criar alguma coisa de valor, para quê escrever? Habituei-me em adolescente usar a escrita como desabafo. Eram peças manhosas sem qualquer valor que não fosse o da cura ou catarse, que nunca dei a ler a ninguém. Fosse em prosa ou em (tentativa de) verso o resultado era mau. Má caligrafia, má gramática, má semântica. Aos 33 anos, no pior momento da minha vida, deitei tudo isso fora e fiz muito bem.


Na casa dos 20 escrevi pouco, apesar da participação na internet. Na casa dos 30 escrevi pouco, apesar de ter blogues e participar em fóruns. Digo que escrevi pouco por não considerar escrever emitir opiniões sem o mínimo critério de forma. Na segunda metade da casa dos 20  e início dos 30 conversava por escrito online em chats e fóruns, e tive os meus modestos blogues – onde me portei muito mal com os co-autores, não os respeitando nem dando liberdade suficiente. Lá juntei um amontoado de frases cheias de erros, gralhas, vaipes, gracinhas, desabafos sobre tudo e mais um par de botas. Apaguei o que pude e se tivesse mão em tudo quanto deixei, apagaria tudo. Não concordo nada com a ditadura de quem nega o direito aos autores de apagarem o que escreveram. A censura não se faz apenas no sentido de não deixar falar, como no sentido de forçar todos a dizerem e a escreverem qualquer coisa e ficarem agarrados ao que escreveram eternamente. Como se o mundo tirano se reduzisse a quem pode ou não escrever em função de poder ou não deixar perpectuar o que escreveu. Penso que quem assim age não tem a consciência que está a coarctar a liberdade de outros, salvaguardada que esteja a necessidade de quem escreve assumir por inteiro as opiniões emitidas e as consequências que daí advenham. Creio que não passa pela cabeça de muitos defensores fundamentalistas do arquivo, que todos temos direitos sobre aquilo que produzimos ou criamos – entre eles o de alienar ou destruir o resultado. E imaginar que só a cobardia ou o mau carácter justifica essa destruição é de uma pobreza de espírito própria de inquisidores.


Ao entrar nos 40 comecei a escrever diariamente sem publicar online. Nos anos anteriores crescia a vontade de construir uma novela ou romance, sempre adiada por preguiça e falta de alento. Com a idade fiquei menos preguiçosa, e o alento veio muito do Nuno, que marca a diferença de tudo quanto estava acostumada, por ser um extraordinário incentivador e constante defensor. Esta voz positiva na minha vida fez toda a diferença. Depois de muitos anos afastada na internet, no final de 2018 voltei à carga, outra. Voltando a gostar das pontuais conversas bem-dispostas e das trocas de ideias despretensiosas online. E também a apreciar dar bitaites. E a gostar muito de escrever nas Comezinhas, que fiz à imagem daquilo que verdadeiramente me dá prazer: estar como se tivesse sentada na mesa redonda da salinha da salamandra em Valinhas a conversar com muito poucos – é verdade que aqui sou eu que falo (quase) sempre, mas sei que posso visitar em silêncio ou não muitas das casas de quem me visita, aqui na SapoBlogs, na Blogger, no email ou no Whatsapp, onde possa ser. Há dias em que disparato em função de coisas que leio ali ou acolá ou da má-disposição momentânea. Desculpem-me. É a telha, não há o que fazer. Já me penalizei demais por isso e não faz sentido.


Mas voltando ao início: a questão é porquê perder tempo expondo-me, mostrando qualidades e fragilidades, se há tanto no mundo mais interessante sobre o que me debruçar? Não sei bem, ou talvez saiba: acho que ao fazê-lo falo do mundo e acreditem ou não – sei que é difícil acreditar -, mas não é do meu umbigo que escrevo ao mostrá-lo.