A fartura. Hoje não trago apenas uma história do Medium acerca de pintura, mas duas. Um fartote. Se o tempo fosse elástico, a quantos mundos poderíamos chegar esticando a mente como quem estende o braço para com a mão agarrar um objecto numa prateleira alta. No primeiro post, o autor, historiador de arte, versa sobre o pintor francês André Derain a propósito da ida a uma exposição do pós-impressionismo. O mote é a busca contínua de novas abordagens artísticas do pintor ao longo da vida, em exploração criativa constante. Desde o fauvismo, que o autor nos conta resultar do epíteto “animais selvagens” (Les Fauves) com que um crítico da época mimoseou os fundadores do movimento, como Derain e Matisse, caracterizado pelo uso de cores intensas e não naturais, pinceladas livres e em Derain no atrevimento de pintar por instinto directamente sobre a tela sem contornos, preterindo as camadas finas de óleo que davam profundidade aos quadros dos mestres. Do fauvismo até ao classicismo mais tardio, passando pelo cubismo e pelo período gótico. Procurando sempre inovar com verdadeiro espírito de criação artística. Na segunda história, o autor, um estudante de Seul, traz a sua interpretação da pintura surrealista Os Amantes II, de René Magritte. Na tela duas pessoas beijam-se com o rosto e cabeça cobertas de um pano branco que impede real contacto físico. Para o autor, que recorre à interpretação das cores das paredes – vermelho como sinal de paixão e azul a estabilidade e inspiração – mas também à sensação de espaço aberto dada pela parede azul – o quadro simboliza a barreira entre o amor verdadeiro e o que se mostra exteriormente. Em paralelo - não chego a perceber se identifica as duas dicotomias -, vê a contraposição do amor eros e o amor ágape, sugerindo que o amor físico pode corromper o amor genuíno, tornando a relação vazia. E fico por aqui com a pintura por hoje. As entradas que deram origem a estes comentários estão afixadas na Reading List.
Ciente que mais tarde posso desdizer-me ou até já estar em contradição com o que tenha feito no passado, conto a razão por detrás do desajuste ou despropósito no alinhamento dos meus posts. Procuro não fazer ou abusar das associações entre arte ou literatura e as ideias que exponho. Opto por deixá-las respirar por si próprias e não gosto de cair na falácia da prestação de tributo para me engrandecer. Procuro não ilustrar o que escrevo com citações ou imagens de obras consagradas - fazer a ponte ou a associação de ideias para suportar as minhas afirmações. É um expediente usado desde sempre, entre pessoas credíveis também. Sucede que cada um é como é e cada vez mais soa a boleia e tantas vezes interesseira e desrespeitadora. Prefiro que as referências ao que leio não sirvam para me justificar. Deixá-las soltas, mesmo dando ar de desajustada. Prefiro correr por minha conta e risco sem encosto que me dê ser.
Parecendo misturar alhos e bugalhos talvez seja a mesma razão que me levou a ter pudor de contar que numa noite de Inverno ao sair do local de trabalho, há três ou quatro anos, já perdi a noção do tempo, ter encontrado na rua a bonita e delicada Lídia Jorge. A precisar de ajuda. Dirigiu-se a mim e perguntou se sabia onde era o Hotel da Música e confessou-me que se sentia perdida no Porto. Disse-lhe que era mesmo em frente e percebi a dúvida. O hotel não tem entrada nos figurinos tradicionais, fazendo parte do edifício requalificado do Mercado do Bom Sucesso. Perguntei desajeitada: desculpe, é a Lídia Jorge? Respondeu-me que sim e limitei-me a dizer que era um grande gosto conhecê-la. Não tive a presença de espírito de elogiar o seu trabalho, que tanto aprecio. Espero que tenha encontrado a discreta porta do hotel. Fiquei arrependida de não ter atravessado a rua e acompanhado Lídia Jorge até à entrada. No Porto somos estranhos, temos hotéis que não parecem hotéis e quadros de Paula Rego no bengaleiro de museus. Há uma certa informalidade e aversão aos pedestais. Nada disto nos retira o gosto pela arte e elegância. Não são é alardeadas.
Lembro que no dia escrevi qualquer coisa nas Comezinhas para assinalar a mim própria este pequeníssimo encontro, sem qualquer referência à escritora ou a nada que pudesse dar a entender a outros o que tinha acontecido. Era apenas uma forma de registar para mim própria. Fui tão discreta que não consigo encontrar esse post e por isso não consigo situar o episódio no tempo. E vem isto a propósito de não gostar de andar à boleia do talento ou da celebridade alheia e de como acho desonestas as permanentes referências interesseiras a quem tem talento ou apenas visibilidade. Sei que isto pode parecer puritanismo. Excesso crítico. Niquices sem valor. Não creio que sejam. Portugal é o país do compadrio. E é nos pormenores que se marca a diferença. Em regra, não se faz juízo crítico das tentativas de aproximação e excesso de intimidade por interesse. A sonsice e falsidade imperam. Ou pior, existe o topete de tecer considerações acerca de quem se teve oportunidade de conhecer a partir de uma perspectiva ajuizadora para dar o ar de autoridade. Marcar a diferença é uma exigência de carácter e independência. Se não aprecio que se aproximem de mim por puro oportunismo e cobiça, não devo usar referências para me beneficiar ainda que nas mínimas circunstâncias.
O respeito pelo outro fica connosco, mesmo que não seja percebido por ele próprio ou pelos demais fica na nossa acção. Talvez tenha deixado clara pelos exemplos singelos a razão para não apreciar o excesso de intimidade oportunista nem quem cultiva amizades interesseiras.
Amanhã é dia de eleições. Acerca do tema deixo apenas mais uma consideração entediante. Em muitos casos o que mais me irrita na opinião de outros, errada na minha perspectiva, é corresponder ao que pensava em tempos passados. Deve ser uma bulha comigo própria. É detestável ver outros caírem nas crenças patetas ou cínicas de mundos de igualdade de oportunidades e em preconceitos e injustiças em que incorri na adolescência ou juventude. É uma bulha na defesa do sentido da vida como aprendizagem e da consciência de não termos vindo ao mundo a passeio. Não me refiro apenas a opinião de gente mais nova, mas da tendência geral. Apetece-me pô-los num programa rápido de vida com problemas graves a resolver, sacudi-los e fazê-los sentir na pele as dificuldades alheias para ganharem consciência da necessidade de respeito pelos demais.
Hoje não houve retrato escrito do quotidiano, mas fica a fotografia da manhã banal. Exibo a imagem trivial, não as célebres.

Obrigada por terem lido. Bom Domingo.