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13/05/2025

Mais uma mexerufada: o chiquedo

(corrigido)


Terei de ser breve ao falar de eleições. Tentarei, pelo menos. O dia pôs-se atarefado sobrando pouco tempo para relatos e opiniões. Começo por contar que esta semana vou experimentar Kumquat; logo darei notícia se apreciei.


O que não gosto nem um pouco é das alcoviteiras que se juntam na televisão a zurzir naquilo que não lhes sirva de encosto e sustento. Ontem à noite a televisão lá em casa esteve ligada na SIC, antes de mudar para a RTP, e vi o costume: o pretenso chiquedo de adro de igreja alfacinha na maledicência habitual. Gente com discípulos replicadores nos blogs e redes sociais. Agora o alvo de ataque é a esquerda, como há trinta anos era a direita; na época em que os clãs de interesse e trocas de favor preponderantes bajulavam os socialistas, apesar dos governos sociais democratas de Cavaco Silva, essa ovelha negra na perspectiva do chiquedo, que agora adere à nova onda. Apontam para onde soprar o vento favorável aos seus interesses. Repare-se que o chiquedo caracteriza-se por três pechas: presunção, acefalia e oportunismo.


Disfarçado de análise política com auto-elogios à alegada lucidez (consideram-se referências do jornalismo, não há nada como estar contente consigo próprio e viver de aparências). O que faziam há trinta anos é o mesmo que fazem hoje: bajulação das redes de interesse e influência e destruição através da maledicência do que tenha valor e merecimento. Viver à custa do poder com grande audiência. Ah, e claro, incluir no pacote o desporto religioso. Aquela sonsice muito característica de quem através da retórica põe os valores cristãos ao serviço da perpectuação do poder discricionário. 


Em matéria de eleições sinto um déjà vu por causa do meu O Livro dos Três Princípios. Escrito entre Abril de 2015 e Abril 2019 antecipa muito do que se passou nestes últimos anos, não só pela coincidência caricata das origens dos dois principais líderes partidários, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, como pelas questões políticas, sociais e ideológicas levantadas. Sucede que como é habitual, tudo fora de tempo. Com atraso e o desajuste de sentido usual. À época em que o escrevi (não tem edição em papel, logo, é tratado como lixo para usar e fazer de conta não se leu) frisei a falta de assunção da voz da direita portuguesa. E aí está ela, finalmente a exibir-se, mas na sua pior versão. A distorcer os melhores argumentos da esquerda por síndrome de chiquedo. Insisto.


Como exemplo, temos a manipulação da proposta de uma taxa para grandes fortunas. Tudo fazem para fazer crer que se está a atacar os criadores de riqueza ou mesmo a classe média e a pôr em causa o respeito das empresas criadoras de emprego. Uma ladainha que faz sentido para contrapor noutras matérias, mas nesta serve apenas para atirar areia aos olhos da mais razoável reivindicação de justiça por deslumbre e reverência bacoca aos sinais de grande riqueza. Uma coisa é criticar a proposta de Susana Peralta na época da pandemia para a criação de um imposto sobre a classe média, uma coisa é perceber que a riqueza não nasce na árvore das patacas, mas das empresas, no capital e no trabalho nelas investido, outra completamente diferente é esticar o dedo mindinho, abanar o rabo (esta dói aos matarruanos ascendidos que acham que sabem o que é educação, mas nem distinguiam abanar a cauda de abanar o rabo) e condenar uma proposta de taxar um punhado de fortunas que absorvem e concentram nas mãos de muito poucos parte substancial da riqueza total do país. Nem sequer querem ouvir falar dos benefícios trazidos pela medida (ai credo aumentar as pensões, isso é uma medida social e não económica; a grande lata destes canastrões não tem tamanho), que acabará com o tempo por ser aceite como uma evidência da mais elementar justiça. Os que a condenam são os mesmos que defendiam contenção dos salários no tempo da crise e ficaram muito admirados que o país pudesse possuir contas certas com aumento do salário mínimo. O chiquedo presumido, acéfalo e oportunista, que caracteriza a pior raça de portugueses. Aquela que lida bem com a injustiça ou vive à custa dela.